06 jun , 1994
SEG
fora de cena Contos Volantes Trigo Limpo teatro ACERT
06 jun , 1994
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fora de cena

Calendarização

06 jun
seg
01:00
  (Campo de Besteiros)

Contos Volantes

Trigo Limpo teatro ACERT

Insere-se numa linha de experimentação ligada à exploração do espectáculo teatral, com a criação de um espaço cénico autónomo. Um chapitô. A relação com o público juvenil, e a abordagem dramatúrgica com base no jogo teatral lúdico e simbólico.
Esta produção apostou fortemente na exploração de engrenagens cénicas imaginativas, que projectassem as histórias para um sentido fantástico.
A circulação do grupo, e a instalação do pequeno circo em cada localidade dava ao projecto um carácter de autenticidade, que sublinhava a pretendida experimentabilidade na proximidade do espectáculo com o público.

Cadernos de Teatro Contos Volantes

Cadernos de Teatro ACERT

Ficha técnica e artística

Estreia 6 de Junho de 1994
Campo de Besteiros

Baseado na Etnografia Portuguesa de José Leite de Vasconcelos
Dramaturgia e encenação
Pompeu José
Figurinos
José Rosa
Costureira
Felicidade Café
Música
Carlos Clara Gomes
Cenografia
Leão Borges e Pompeu José
Cartaz e programa
José Tavares
Máscaras e maquinaria
colectiva
Técnico
Luís Viegas
Elenco Carla Torres, José Rosa, José Rui, Pompeu José e Raquel Costa


Sobre o espetáculo

A “fabricação” deste novo espectáculo tem por base um projecto de teatro móvel: uma pequena tenda de circo (com 13,5 m de diâmetro) idealizada e construída pelo grupo, de fácil transporte, montagem e desmontagem, que permite a deslocação às povoações (mesmo as mais pequenas e distantes) abrangendo, de uma forma mais directa, a população escolar do 1º Ciclo do Ensino Básico para além do público em geral.
A elaboração do texto é feita a partir da “Etnografia Portuguesa” de José Leite de Vasconcelos e conta, enquanto um caldo verde coze num panelão, a história de Salta-Pocinhas que, numa tentativa de compreender o funcionamento dos mundos, empreende uma curiosa viagem.
Através de uma representação que nos remete aos saltimbancos e aos ritmos e canções com raízes na música popular portuguesa pretende-se contagiar os espectadores e levá-los a reviver gestos e palavras que estarão porventura adormecidos na memória colectiva.


Excerto do texto

BEBE-ÁGUA - Que torre é aquela? É a torre da terra negra?
TI MIQUELINA - É. É a torre da Babilónia; Quem lá vai, lá fica e lá mora. (Ele vai para se ir embora, ela tenta assustá-lo.) Não tens medo de mim?
BEBE-ÁGUA - Não!
TI MIQUELINA - Fazes muito bem! És a primeira pessoa que resiste ao medo de me ver. Em paga da tua coragem deixo-te passar…
BEBE-ÁGUA - (Encontrou uma casa muito alta que só bem alto é que tinha uma janela. Bateu na parede e disse:) Arcelo, arcelo,/ Deita o teu cabelo/ Cá abaixo de repente,/ Quero subir imediatamente./ (Começa a trepar)
BEBE-ÁGUA - Farta-se um homem de subir… É o diabo pr’a lá chegar!
(Encontra o Pardalito) O que fazes por aqui?
PARDALITO - Venho acender a luz…
BEBE-ÁGUA- Então tu é que…?
PARDALITO - Fazes mal em falar alto; às vezes as moitas têm olhos e as pedras têm ouvidos.
BEBE-ÁGUA - Neste deserto não pode estar ninguém.
PARDALITO - Tens de arremelgar os olhos…
BEBE-ÁGUA - Não me quilhes! Estou desejoso de ver aquilo em falava o Salta-Pocinhas…
PARDALITO – (Tapa-lhe a boca com a mão) O que vês acolá?
BEBE-ÁGUA - Vejo…
PARDALITO- Deves dizer: Lua nova bem te vejo. Dá-me tudo o que eu desejo!
BEBE-ÁGUA - Lua nova bem te vejo. Dá-me tudo o que eu desejo!
PARDALITO - A lua é mais linda que o sol. O sol queria casar com ela, mas a lua não lhe deu cavaco.
BEBE-ÁGUA- Mas tu vens acender…
PARDALITO – (Faz sinal para ele não falar) No principio dos princípios houve uma explosão e o universo era só luz. Agora o céu de lado a lado, é todo azul sem mancha e coberto de lumes…
(Os outros em baixo têm um montinho de terra numa mão. Cantam como quem chora. Lá em cima eles calam-se.)
GLÓRIA - Desde que ele partiu nunca mais choveu.
SALTA-POCINHAS - Já não há chuva.
PAPA-AÇORDA - Com essa viagem o que ele mudou foi o tempo, foi o que foi.
(Pardalito com um regador faz chover. Os outros apanham um pouco de água, vão colocar o montinho de terra na ferradura e plantam uma semente que bafejam primeiro. Sentam-se no chão junto ao público.)
PARDALITO - Camarada, é preciso ires-te embora.
BEBE-ÁGUA - Não, eu não vou daqui embora mais.
PARDALITO - Camarada, vai-te embora que isto por ora não é para ti; ainda há-de vir a ser.
BEBE-ÁGUA - Espera um pouco; é necessário que o grande astro se encontre em conjugação… faltam apenas dois minutos.
PARDALITO - Enrola ao redor do teu dedo esta linha branca e por cima desta enrola esta linha azul, quando queiras que seja dia passa a branca para cima da azul e, quando queiras que seja noite, pões a azul sobre a branca.
E toma este novelo. (Dá-lhe um novelo que prende por uma ponta à porta da casa) Vai desenrolando o novelo até chegares à sua extremidade.
BEBE-ÁGUA - E tu?
PARDALITO - Já vou ter contigo. (…)

excerto do texto “Contos Volantes”


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