14 abr , 2000
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fora de cena Se Chovesse Vocês Estragavam-se Todos Trigo Limpo teatro ACERT
14 abr , 2000
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fora de cena

Calendarização

14 abr
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Tondela  (Auditório 1, Novo Ciclo ACERT)

Se Chovesse Vocês Estragavam-se Todos

Trigo Limpo teatro ACERT

Partindo de um texto particularmente datado, a encenação procurou sublinhar os aspectos mais universalistas e contemporâneos, criando um envolvimento dramático e uma interpretação subtil, em termos de simplicidade e de rigor.A encenação dirigiu-se na pesquisa de elementos simbólicos e poéticos da dramaturgia que projectassem, no trabalho de actor, pontes de reflexão não dirigista com a realidade actual.
A concepção cenográfica e a iluminação utilizam a projecção vídeo como acessório complementar à narrativa teatral. O trabalho musical incidiu na invenção de sonoridades que reforçassem a

Ficha técnica e artística

Estreia 14 de Abril de 2000
Auditório 1, Novo Ciclo ACERT, Tondela 

texto Clovis Levi Tânia Pacheco
Encenação Carla Torres
Assistência de encenação Hugo Torres
Cenografia, vídeo e slides José Tavares
Figurinos Ruy Malheiro
Música Carlos Peninha
Poema Carlos Santiago
Escultura Albano Martins, J. Calisto
Direcção técnica e desenho de luz Luís Viegas
Actores (vídeo) Ilda Teixeira, José Rui Martins e Maria Simões
Músicos (estúdio) Carlos Bispo, Carlos Peninha e Nuno Cash
Carpintaria Sílvio Neves
Assistência técnica Paulo Neto Ricardo Duarte
Confecção de figurinos Felicidade Café, Ruy Malheiro
Fotografia Carlos Teles Paulo Leão
Desenho gráfico e anúncio televisivo José Tavares
Elenco Cláudia Andrade e Pompeu José


Carla Torres

Nesse momento, eu fui actriz!
Do que é que eu me lembro quando penso no Trigo Limpo?
Em 1979 foi proposta em reunião a entrada de uma miúda de 11 anos para o grupo. Lembro-me do nervosismo da espera. Na sala eles decidiam. Seguiu-se o orgulho quando me chamaram para, em colectivo, me comunicarem o meu novo estatuto. Nesse momento, eu fui actriz!
E depois, o que é que eles fizeram com esta miúda? Integraram-na nas actividades do grupo de forma a que se sentisse útil e necessária, levavam-na a ver espectáculos de outros grupos em viagens colectivas que organizavam a vários pontos do país. Em conclusão: tornaram-na um elemento do colectivo em pé de igualdade com todos os outros e, convenhamos, que não deve ter sido tarefa fácil.
Mais tarde foi criada a ACERT e com ela a entrada de muita gente nova, quer para o Trigo Limpo quer para a Associação. E aí começou a história de vasos comunicantes que são hoje a ACERT e o seu grupo de teatro - com a produção artística a ter mais peso em uns momentos, enquanto noutros, a animação cultural a ganhar protagonismo. Duas vertentes, portanto, indissociáveis. É neste equilíbrio, nem sempre fácil de gerir, que o papel do Trigo Limpo se cumpre na totalidade com genuinidade.

Carla Torres


Excerto do Texto

ALUNO - Sabiam que antes da Nova Escola havia gente que lutava só porque pensava de maneira diferente? Que absurdo, não é avó? Como é que alguém pode pensar de maneira diferente? Imaginem. Uma pessoa pensa de maneira diferente, e luta, e morre só por causa disso. Que estupidez, não é? Sabem, eu achei isto tão estranho que quase cheguei a duvidar. Pensei que a professora estava a dizer uma mentira de propósito só para nós duvidarmos. Mas não. Uma professora não mente! É porque é verdade. Mas por mais que me esforce, nunca vou entender porque é que alguém iria lutar....
PROFESSORA - O sinónimo mais importante de passado é dúvida. A aula de hoje é: A HISTÓRIA DO HOMEM, DO JARDIM DAS DELÍCIAS À DECADÊNCIA ATRAVÉS DO TEMERÁRIO CAMINHO DA DÚVIDA.
ALUNO - Eu fiquei impressionado com a aula. É incrível, avó, como a dúvida causou uma série de coisas más para o ser humano. Desde Adão até hoje, a dúvida tem sido a pior inimiga do homem. A senhora sabe, avó, porque é que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso? Porque duvidaram que a árvore do Bem e do Mal pudesse causar mais mal do que bem.
PROFESSORA - A civilização grega entrou em decadência por causa da dúvida. Os gregos duvidaram sempre que os filósofos fossem irrecuperáveis criminosos e deixaram que eles cultivassem a dúvida no coração de todo o povo. Mas não foram só os Gregos…
ALUNO - Os Egípcios, porque duvidaram que os bárbaros fossem mesmo bárbaros; os Judeus, vocês sabem porque é que os Judeus são injustamente perseguidos em todo o mundo? Porque duvidaram que Jesus Cristo fosse filho de Deus. E porque é que Jesus Cristo morreu na cruz? Porque duvidou dos judeus. Se ele tivesse acreditado no que os judeus diziam - que ele não era filho de Deus - não tinha sido assassinado pelos romanos. E os romanos? Sabem porque entraram em decadência? Porque duvidaram...
PROFESSORA - ... do axioma histórico que afirma que todo povo tem um período de desenvolvimento, um período de auge e um período de decadência. Os romanos pensaram que o auge nunca mais iria acabar e duvidaram do axioma político que afirma que a segurança é a única forma de manter o desenvolvimento.
ALUNO - E vocês sabem porque é que Napoleão perdeu a guerra com a Inglaterra? Por causa da dúvida.
PROFESSORA - É sempre a dúvida, sempre a dúvida, a dúvida é a maior inimiga do homem.
ALUNO - A dúvida, avô, a dúvida vem do diabo. Foi o que disse a Professora. Durante a Idade Média, todo o povo estava possuído pelo diabo da dúvida. Foi quando a Igreja descobriu o perigo da dúvida e salvou o mundo.
PROFESSORA - Os bons padres prenderam os que estavam possessos e torturaram-nos até eles confessassem todas as suas dúvidas. Os que confessaram mas não abjuraram, esse os padres tiveram que os queimar numa fogueira, para que eles pudessem ganhar o Céu.
ALUNO - Havia alguns, avó, que estavam tão possuídos pelo diabo da dúvida, que nem com torturas confessavam. Esses, a Inquisição queimava-os numa fogueira ainda maior. Para matar os diabos. Essa foi a única maneira de acabar com a dúvida e manter a ordem pública.
PROFESSORA - A dúvida trouxe sempre a infelicidade, a angustia. A dúvida era e é a maior inimiga do homem. Todos os animais são felizes. E porquê? Porque não têm dúvidas. É para que o homem possa alcançar a felicidade dos animais que existem as escolas. A Escola existe para tirar as dúvidas do Homem. Para que o Homem possa alcançar a felicidade perfeita.
ALUNO - E a Professora voltou a falar nos sinónimos e antónimos. Explicou que o sinónimo de dúvida era pensar de forma diferente. E que o antónimo de dúvida era verdade. E disse-nos que agora já estávamos preparados para aprender a terceira grande lição. (…)

excerto do texto “Se Chovesse Vocês Estragavam-se Todos”


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