13 out , 1997
SEG
fora de cena Qu’Ilhados trigo Limpo teatro ACERT

Calendarização

13 out
seg
21:30
Tondela  (Novo Ciclo ACERT)

Qu’Ilhados

trigo Limpo teatro ACERT

“ Qu’ilhados”foi consequência de um processo de escrita teatral baseada em improvisações em torno de personagens. Toda esta experiência foi posteriormente articulada na criação de um guião, no qual se reunificavam as diferentes situações criadas pelos actores.|
Tratou-se de um projecto teatral em que a música, a cenografia e o trabalho de actor assumiram uma preocupação estética intencional- mente exploratória de caminhos gratificantemente criativos.

Ficha técnica e artística

Trigo Limpo teatro ACERT em co-produção como “grupo teatro experimental a teia”

Estreia 13 de outubro no Novo Ciclo

Poemas Carlos Santiago
Cenografia José Tavares, Paulo Leão
Música Paulo Borges
Produção Walter Peres
Figurinos colectivos
Desenho de luz José Rui Martins
Iluminação Mário Rego
Apoio técnico Fernando Ribeiro
Desenho gráfico José Tavares
Fotografia Carlos Teles Paulo Leão
Apoio dramatúrgico Judite Pereira e José Tavares
Apoio à produção Carla Torres, José Rosa, Luís Viegas, Marta Costa e Raquel Costa
Elenco Evandro Machado, José João Angeiras, Judite Parreira, Verónica Bettencourt e Walter Peres


Texto do encenador

Tudo se iniciou com uma escolha de textos de “De faca & alguidar” pelo grupo A Teia, da Praia da Vitória. De início, não achei nada interessante repôr um espectáculo que já tinha feito. O convencimento adveio de a escolha não se dever a terem visto o espectáculo, mas lhe terem apetecido teatralmente os textos.
Dez dias na Ilha Terceira, em Agosto. A necessidade de conhecer um bando de “irresponsáveis” que acreditavam em mim, sem que eu me tivesse dado um bocadinho. A conversa inicial, de troca de olhares e sabores, para a primeira mastigadela dos textos do Santos Fernando que, agora, já são teatro.
Coloquei o baralho na mesa - gostava que me encontrassem o seu personagem naquela ilha. Cinco ilhéus que, face ao acto de debandada geral, se negariam a sair, por razões que lhe eram muito peculiares.
Ouvi os seus nomes, pedaços das suas vidas, e pormenores subtis que os levavam a não desejar sair da ilha, em nenhuma circunstância.
Contagiado pela autenticidade do que ouvia, fui anotando, e transmiti às instâncias internacionais, com os meus zelosos comentários.
O resultado foi ter recebido a decisão de eles terem resolvido manter-se, desde que confinados a um único compartimento, em que ficariam ligadas a água e a luz.
Senti-me tomado pelas suas vidas, e resolvi ficar, por conta e risco, mais uns tempos, desafiando-me numa aventura que me tomava todo.
Foi assim que as histórias de humor negro de Santos Fernando foram substituídas por sinais de vidas que escorreram de bocas, e que camaleonámos neste espectáculo.
Ouvir, sentir, cheirar, ouvir o mar, sentir o isolamento substituído por partilhas, foi o trampolim para escrever pela noite dentro de uma semana, enquanto se somavam, pela manhã e tarde, encontros de leitura, atravessados por toiradas a que um tinha que dar a cor do seu trompete…
Uma semana mais, e avança-se com as letras de um poeta galego…
Os actores - eu sentia - partiam-se aos bocados para terem mãos que agarrassem tão grande rede.
A rota foi, em duas semanas, invertida: trocámos o “boca negra” pela “garoupa”. Substituímos as “lulas” pela “abrótea”, e vimo-nos realmente Qu’ilhados.
Saímos para o continente de cenário a reboque, esgravatámos ansiedades, vencemos bloqueios, e desfrutámos loucuras que a nossa pequena barcaça pudesse aguentar.
O resultado é um texto criado a partir dos seus diários de bordo. A pescaria é a vontade forte de remadores que, não conhecendo todos os segredos do mar, o enfrentam com a persistência de quem com ele deseja viver, substituindo, com o seu empenhamento, o culto saber dos entendidos, que tudo sabem, ou julgam saber.
Para os remadores, para os muitos mares que me espreitam… que o público aceite este despretensiosismo e nos mastigue tal como somos, é nosso desejo sentido.

José Rui Martins


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