01 mai , 1977
DOM
fora de cena Quadros Do Quotidiano Trigo Limpo teatro ACERT
01 mai , 1977
DOM

fora de cena

Calendarização

01 mai
dom
21:00
  (Tondela)

Quadros Do Quotidiano

Trigo Limpo teatro ACERT

Estátuas de Tondela

CÂNDIDO FIGUEIREDO – Chamo-me Cândido Figueiredo; puseram-me aqui por ser o mestre da língua Portu- guesa. Mas tiveram tanto, ou tão pouco, respeito por mim que me puseram à chuva, ao sol, ao frio, e até os pássaros mostram quanto me querem fazendo de mim miradouro e retrete pública.
SOLDADO – Eu sou o soldado desconhecido, dizem que sou o mais belo e mais bonito que há por estas terras de Portugal.
TEIXEIRA I – Puseram-nos aqui porque dizem que somos a justiça.
TEIXEIRA II – Mas há quem diga que fazemos reclame às senhoras de Tondela pois a nossa beleza é extrema, sinteticamente falando.
SOLDADO – Oh minha mãe, maldita sorte a nossa, tiraram-nos dali de ao pé da Igreja para nos porem aqui neste descampado.
Ainda me estou a lembrar daquele que no outro dia vinha ali da Caixa Geral de Depósitos a contar o dinheirito. Vinha ele tão metido naquilo, que marrou aqui na pedra. eu bem notei, vocemecê a escapar-se-me dos braços e a fincar-me os dentes nos ombros para não se rir.
MÃE – Já viste a bronca que era? Eu julgo que o Cândido também viu, mas apesar disso, não deixa o seu ar de mestre da língua Por- tuguesa.
SOLDADO – Ele, por escrever uns livritos, foi posto aqui e em Lobão, com uma estátua a meio corpo, que mais parece uma fotografia para carta de bicicleta.
CÂNDIDO – Cala-te, homem! Enquanto eu tenho um letreiro a dizer : “Mestre da Língua Por-
tuguesa”, tu devias ter um a dizer: “Depois de burro morto, se lhe enseba o rabo”.
MÃE – Mas olha que a recordação mais bonita que os turistas levam, é a nossa!
SOLDADO – Somos reconhecidos internacio- nalmente!
CÂNDIDO – Deixa-te disso, homem! Ainda ontem vi, ali na televisão do Dr. Valente, um reclame que dizia: “Prefira produtos nacionais”.
TEIXEIRA I – Eu e a minha mana aqui estamos só para fazermos sombra. Eu pr’ó gabinete do Juiz e ela pr’ó do Delegado.
TEIXEIRA II – E o pior é abrir-se aqui um res- taurante, e nós aqui alimentadas a milho e a centeio secados nesta eira…
TEIXEIRA I – Sujeitas a apanhar uma descal- cificação nos ossos!…
Entra um turista, ficando maravilhado.
Tira algumas fotografias e quando se dirige ao Soldado:
SOLDADO – Alto, deixe-me compor o ca- pacete, e você, minha mãe, componha esse lenço, pois é a recordação mais bonita que eles levam.
O turista fica doido por ver uma estátua falar e senta-se aos pés do Cândido
CÂNDIDO – Cuidado, homem que me está a pisar os calos! (O turista foge) A culpa não é sua mas, sim, de quem tirou daqui os bancos.


Excerto do texto “Quadros do Quotidiano”

Ficha técnica e artística

Estreia: 1 de Maio de 1977

Participantes: Albertino Gonçalves Dias Alberto Nunes, Alberto Gomes Rodrigues Antero Marques, António Manuel Amaral, António Marques Dias, António Martins, António Sérgio Ferreira, Carlos Teles, Celso Coimbra, Cid Morais Ferreira, David Coutinho, Eduardo Coelho, Élio Antunes, Elisa Matos Rodrigues, Elísio Matos, Emília Matos Rodrigues, Humberto Silva, Idalina Matos Rodrigues,  Jacinta Azevedo, João Almiro, José Carlos Santos, José Manuel Lemos, José Rui, José Tomás, Judite Maria Matos, Júlio Marques Rodrigues, Lúcia Azevedo, Luís Mendes, Luís Filipe Rocha, Luís Matos Rodrigues, Margarida Abreu, Margarida Teles, Maria Celina Matos, Mário Marques da Silva, Rosa Melo, Silvino Coimbra e Vitor Manuel.