27 mar , 2004
SÁB
fora de cena Pela Boca Morre O Peixe Trigo Limpo teatro ACERT
27 mar , 2004
SÁB

fora de cena

Calendarização

27 mar
sáb
21:45
Tondela  (Novo Ciclo ACERT)

Pela Boca Morre O Peixe

Trigo Limpo teatro ACERT

em resumo

Vê-se no espaço um peixe-barco já só espinhas.
É noite.
Enquanto o público entra todos dormem.
Abertura musical.
Quem tentava dormir desespera, vê o público e esconjura-o.
"Peixes a primeira coisa que me desedifica de vós é que vos comeis uns aos outros.
Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos.
Se fora pelo contrário era menos mal.
Se os pequenos comessem os grandes, bastava um grande para muitos pequenos mas como os grandes comem os pequenos, não bastam dez pequenos, nem mil, para um só grande"
Parece-vos bem isto, peixes?
Representa-se-me que com o movimento das cabeças estais todos dizendo que não, e vos estais admirando e pasmando de que entre os homens haja tal injustiça e maldade.
Pois isto mesmo é o que vós fazeis.
Os maiores comeis os pequenos; não só de dia mas também de noite, às claras e às escuras…
Dir-me-eis que o mesmo fazem os homens. Não vo-lo nego…”
Quem dormia no barco acorda…
“Tenho fome! – diz um.
Também já comia qualquer coisa… - diz outro.”
Os mantimentos acabaram e os 3 “náufragos” esfomeados, um grande, um médio e um pequeno, (um pai, uma mãe e uma filha? um conde, um lambe-botas e um pobretanas?) tentam desesperadamente encontrar o que comer até que rapidamente descobrem que não havendo que comer vão ter que comer alguém.
Campanha eleitoral, eleições, discursos de fazer chorar as pedras da calçada, tudo serve para não se ser o escolhido.
Até que convencem o pequeno a deixar-se comer de livre vontade movido por todos esses nobres sentimentos que animam qualquer ser humano: espírito de sacrifício, amor ao próximo, altruísmo…
Mas ao lavar-se antes de ser comido, olhando o “mar”, a mesa posta e os seus companheiros de guardanapo ao pescoço, o pequeno ainda se questiona:
Se os tubarões fossem homens seriam mais amigos dos peixinhos?
Os outros voltam à carga.
Então não seriam…
Se os tubarões fossem homens haviam de construir no mar, caixas enormes para os peixinhos, com toda a variedade de alimentos no seu interior, Haveria também escolas no interior das caixas.
Nessas escolas ensinar-se-ia os peixinhos a entrar nas goelas dos tubarões.
O principal seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos.
Ser-lhes-ia ensinado que não há nada mais bonito nem mais valoroso para um peixinho do que sacrificar-se com alegria;
Quando vão sacrificar o pequeno um picuinhas interrompe: por falar em peixinhos eu também já tive um...
E explica detalhadamente onde e como e os porquês do peixinho.
Mas…
…anteontem aconteceu-me uma desgraça, vi que o peixinho precisava de mais água e deitei-lhe um balde cheio de água, mas foi demais e depois a água estava assim desta altura por cima do aquário, mas eu só vi isso no dia seguinte e o peixinho nadou pela borda fora e caiu no chão.
Mas o peixinho não tinha água no chão, porque fora do aquário não temos mais água nenhuma no quarto.
Então a dona da casa disse-me: “Vai ver que o peixe lhe morre aí no chão, era melhor o senhor matá-lo”. Para ele não ter de sofrer tanto, pensei eu, matá-lo com o martelo? És mas é capaz de martelar o dedo, vou mas é fuzilá-lo. Então pensei: És mas é capaz de não lhe acertares bem, e então é que ele tem mesmo de sofrer, é melhor, disse eu. Vou mas é levar o peixe para o lago e afogo-o.
O picuinhas tira o peixe do casaco, lança-o à água e sai.
A água, lentamente, vai ficando vermelha…

Ficha técnica e artística

Textos “Sermão de Santo António aos peixes” de Padre António Vieira (excerto), “No alto mar” de Slawomir Mrozek, “Se os tubarões fossem homens…” de Bertolt Brecht , “O aquário” de Karl Valentin
Dramaturgia e encenação: Pompeu José
Actores: Ilda Teixeira, Pompeu José, Ruy Malheiro e Sandra Santos
Assistência de encenação: Paulo Neto
Cenografia: José Tavares e Marta Silva
Música: Fran Perez e Xacobe Lamas
Figurinos: José Rosa
Técnica: João Paulo, Luís Viegas, e Paulo Neto
Carpintaria: Sílvio Neves
Serralharia: Rui Ribeiro
Apoio à montagem: João Arede, Pedro Borges, e Nuno Cardoso
Produção: Marta Costa
Secretariado e tesouraria: Irene Pais e Rui Vale
Cartaz e programa: José Tavares
Fotografia: Carlos Teles
Vídeo: Zito Marques
Agradecimentos: Teatro Animação de Setúbal, Teatro o bando, Bombeiros Voluntários de Tondela e todas as outras corporações que nos ajudaram neste espectáculo

Embaixada da Polónia
CETbase, centro de estudos de teatro, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa


Texto do encenador

por um lado

Algumas imagens com água e peixes surgem ciclicamente.
Mesmo nos sonhos.
Primeiro o nascimento: essa saída brusca do líquido e a passagem à vida, a esta.
Depois o voar, apenas possível no estado líquido da matéria, e a metáfora dos peixes.
Ainda por cima alguns textos pedem repetidamente atenção, martelam-nos novas ideias para as mesmas palavras.
(Ainda no Teatro Animação de Setúbal esteve quase preparada uma versão de “no alto mar”, de Mrozek e já no teatro o bando o apelo da água voltou e na pregação falámos com os peixes, como o António, e falámos de peixes e fomos peixes…)
Há muito tempo que certas coisas andam cá por dentro a remoer.
E os anos passam (30 sobre o 25 de Abril) e a metáfora dos peixes, grandes e pequenos, do que é que vamos comer ou como é que nos vamos comer, da concretização dos sonhos, martela-nos ciclicamente com imagens e textos.
E tudo isto, de água e peixes, continua por dentro a moer.
Agora, no Trigo Limpo, chegamos a este pela boca morre o peixe porque:
A metáfora ainda tem razão de ser e existir…
A cidadania, a democracia, o sermos nós, mesmo nos sonhos, ainda se pode e deve discutir e aprender e concretizar…
Continuamos a teimar que o estado líquido é o único estado da matéria em que o ser humano é capaz de voar por dentro. (É por dentro do azul que podemos voar.)
Daí esta nossa inclinação para peixes.
Esta vocação para pregar aos ditos.
Este estar disposto a ser sempre a fingir.

por outro lado

Temos andado sempre às voltas com os espaços de apresentação dos espectáculos: em sala, na rua, em espaços mais ou menos convencionais, mais ou menos adaptados…
Ao mesmo tempo tentando perceber que há teatro de rua e teatro na rua, que podemos estar na sala a fingir que estamos na ruaou que podemos estar na rua a fingir que estamos na sala…
E se este p’la boca já pediu rua e água vai agora parar à sala, se calhar, com água…
Porque por detrás de tudo está o despojamento dos sem abrigo, que como numa sala estão na rua …
São náufragos mesmo ali na esquina.

Pompeu José


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