22 mai , 1998
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teatro de rua Memoriar Trigo Limpo teatro ACERT

Calendarização

22 mai
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Lisboa  (Expo'98 Lisboa)

Memoriar

Trigo Limpo teatro ACERT

sobre o espectáculo
«Peregrinar tendo como protagonista uma figura da nossa memória - “Caramulo”. Depreender sobre universos expressivos, que têm no conhecimento popular eixos imaginativos preponderantes.
Viajar no tempo com o imaginário, lutando com os vírus duma desumanização, que retiram o prazer e o sentimento, em nome duma mecanização universalmente imposta.
Aventurar-se num tempo com a duração de compassos musicais dum peregrinar feito em festa.
Brincar com a naturalidade da descoberta infantil, jogando a um faz-de- conta que é tudo verdade, e que somos todos, por momentos, argila nas mãos de um artesão nortenho que nos transformará em peça “mistério”. Falar o “galrejo” de Molelos ou o “fonokam” de molelenses da Galiza, como códigos que a ansiedade traduz em comunicação fluente para quem se deixa contagiar pela fantasia.»
Baseada no ciclista, brinquedo tradicional português, esta máquina de peregrinar foi concebida e construída para a Peregrinação, evento regular diurno da Expo’98.
É um cenário móvel que realizou, no âmbito da Exposição de Lisboa, 333 Km em desfile sem contarmos com o período de testes e ensaios.
Foi para esse efeito concebida uma dramaturgia autónoma para a máquina mas com o conhecimento da sua integração no todo, uma vez que o desfile diário da Expo’98 foi criado de raiz em parceria com todos os participantes.

Ficha técnica e artística

Estreia 22 de Maio de 1998
EXPO’ 98 Lisboa

Integrado na “Peregrinação” Evento Regular Diurno da EXPO’ 98 o desfile diário da Exposição 22 de Maio a 30 de Setembro

Direcção artística José Rui Martins
Direcção plástica José Tavares
Direcção técnica Luís Viegas e Fernando Ribeiro
Assistência mecânica Manuel Matos Silva
Estudos e engenharia António Cruz
Escultura e mecanismos Nico Nubiola
Idealização e desenho das máquinas sonoras e instrumentos Psicofónica de Conxo: Carlos Santiago, Fran Perez, Pepe Sendón e Xavier Olite
Estrutura serralharia António Antunes (Iberfer)
Serralharia Rui Ribeiro
Carpintaria Sílvio Neves Silvério Carvalho
Canalização e tubagens Fernando Rei
Mecanismos eléctricos Anatol Waschke
Esculturas de martelos Luís Ferreira Pacheco
Pintura e apoio à montagem António da Mirita ,João Arede
Apoio à produção Carla Torres, Fausto Gomes, Irene Pais, José Rosa, Marta Costa, Miguel Torres, Paulo Leão e Raquel Costa
Animação e modelação 3D Tony Rebelo
Fotografia Carlos Teles, Manuel Fernando, Maurício Abreu e Paulo Leão
Composição musical, tratamento fonético e invenção do “fonakam” Psicofónica de Conxo
Dramaturgia e recolha do dialecto de Molelos José Rui Martins
Elenco Carla Alves, Carlos Santiago, Catarina Estrela, Fran Perez, João Nuno, João Sebastião, Lavínia Moreira, Melânia Silveira, Nuno Leite, Osga Patrícia Pina, Paula Pinto, Pepe Sendón e Xavier Olite


João Nuno Martins

Os homens vivemem dois tempos distintos e inimigos. Um é o tempo sem tempo da infância eterna, da descoberta e da espontaneidade, da criatividadee da aventura. Não é um mundo de regressão – tão pouco de regresso – pois é contínuo e jamais deixa de nos visitar, a cada passo, entre o passo, entre o sono e a vigília, na surpresa permanente de estar vivo,na inverosímel realidade. É o tempo que atravessa os anos carregado de heranças, visões de avós ressuscitados, memória de uma e de muitas infâncias, as fantásticas infâncias do passado, ar de voos em comum, solo de comunidade. Este é o tempo vivido pelos cinco peregrinos que adejam em torno do ciclista gigante e sua bicicleta, réplica monumental do antigo brinquedo de feira.
Outro é o tempo que se desintegra no interior dos mecanismos dos relógios. Os despertadores lançam-nos na rua nus e com horários. Códigos constrangem-nos em carris de minutos.
O mundo das rotinas e dos compromissos, sem tempo para desvendar segredos. Dois peregrinos – os míticos do tempo – vivem encerrados neste mundo do tempo, como numa jaula.
Ciclista e bicicleta, feitos de madeira e pintados em cores vivas de brinquedo tradicional, passeiam marcas dos sonhos e mistérios da terra: aquários com peixes nas barras das meias, tubos transparentes com água e azeite nas coxas, porta alimentos transparentes cheios de frutos secos no aro da roda, paus de chuva e campainhas nos raios, trapézios nos joelhos, compartimentos de observação na cabeça, fumos saindo da boca, jactos de água e objectos variados despontando no tronco. A marcha do objecto produz sons regulares de vida em movimento (uma campainha de bicicleta e o restolhar dos frutos secos nos seus compartimentos)
Os cinco peregrinos da aventura vivem fascinados por este brinquedo. Descobrem a simplicidade primordial dos seus maquinismos, os seus interstícios, conhecem-no em todos os ângulos, escalam-no, brincam como quem constrói casa em árvore e daí observa o mundo.
Na gaiola de ferro, os dois míticos operam a maquinaria do tempo, produzindo sons estridentes de relógio-de-cuco, sino ou despertador. Estes sons interrompem, a espaços, o fluir da via no ciclista, sem chegar a destruir o encanto, que logo se refaz.
Os figurinos, como os motivos dominantes na decoração do ciclista, inspiram-se em figuras do artesanato do Norte de Portugal, «artesanato mistério».
O percurso traduz a vida, personificando o ciclista «Caramulo», a carga onírica que a sustenta como forma de realização criativa, suportada por valores de fantasia, inquietação, descoberta e experiência. O factor tempo enquadra o espaço aventura, apenas marcando o compasso para novas etapas favorecedoras de surpresas (...)

João Nuno Martins


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