26 jul , 1996
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fora de cena Faldum Trigo Limpo teatro ACERT

Calendarização

26 jul
sex
01:00
Montemor-o-Novo  (Castelo de Montemor–o–Velho - Abertra do Citemor)

Faldum

Trigo Limpo teatro ACERT

Uma experiência de teatro de rua, com a participação de um numeroso elenco. O conto serviu de fio condutor a uma dramaturgia que se pretendia potencializadora de grandes movimentações, e a interpretações que resultassem em grandes espaços.
Nesta produção, o estudo de implantação cenográfica revelava-se um elemento fundamental, em que se procurava que o público mantivesse sensações de forte impacto visual, e que a poética musical e a relação dos actores com as diferentes zonas de representação salientassem o sentido fantástico do texto.

Cadernos de Teatro Faldum

Ficha técnica e artística

Espectáculo comemorativo do 20º Aniversário
Estreia 26 de Julho de 1996 Castelo de Montemor–o–Velho - abertura do Citemor

Texto a partir de um conto de Hermann Hess e “Práticas e crenças mágicas” de José Pedro Saraiva
Dramaturgia e encenação José Rui Martins
Música Carlos Clara Gomes
Arranjos Carlos Clara Gomes Carlos Peninha
Na estreia Filarmónica União Praiense / maestro Marco Menezes
Coordenação musical Luis Gil Bettencourt
Músicos António Borges, Arlindo Barcelos, Braulio Brito, Cândido Brito, Carlos Gomes, Delfim Costa, Duarte Trindade, Francisco Soares, Francisco Vieira, Guilherme Lima, Hélio Antunes, José Mendonça, Márcia Sousa, Marco Meneses, Muguete Santos, Osvaldo Ochoa, Paulo Silva, Pedro Machado, Ricardo Costa, Rodrigo Lima, Sandra Santos, Sara Barcelos, Sónia Gonçalves e Tânia Branco
Outros espectáculos Filarmónica Tondelense
Maestro José Manuel Duque
Músicos Alexandre de Matos, Ana Cristina Gonçalves, Ana Margarida Rodrigues, Ana Paula Rodrigues, Ana Rita Ribeiro, Andreia Pereira, Angela Pereira, António Coelho, António Sá Barros, António Fernando Nunes, António Rodrigues, Arménio Sousa, Bruno Bernardo, Carmélio Matos Carmelo, Carlos Daniel Silva, Carlos Manuel Simões, Carlos Ventura Vale, Catarina Lopes, Cláudio Pereira, Diogo Calçada, Eufemia Teixeira, Filipa Cardoso, Isabel Costa, Isabel Rodrigues, Ivo Cardoso, João Paulo Rodrigues, Jorge, Manuel Matos, José Gomes da Silva, Júlio Ferreira Lopes, Luís Carlos Cardoso, Luís Pedro Rodrigues, Mário da Graça Melo, Marta Gouveia, Nuno Almeida, Romeu Viegas, Rui Pedro Silva e Sérgio Coimbra Morais


Excerto do Texto

CURANDEIRA - (Prepara-se para o ritual. Vai acendendo lume nos alguidares de barro, ficando no centro.) Não sou “surgião” nem menos tenho livros por onde aprendesse a fazer minhas curas, nem eu sei ler “munta cousa” de consideração. O motivo por que as faço é, porquanto vindo um dia a minha casa um homem a quem não sei do nome e nem menos donde era, a curar a minha filha, já defunta, por nome Maria, que padecia achaques bastantes até que veio a entrevecer, vi que o dito homem aplicou à minha falecida um emplasto confortativo que lhe pôs na boca do estômago, e lhe fez umas rezas, e a dita minha filha melhorou e andou muitos tempos sã. E depois, querendo-se ir, o dito homem, vendo que minha filha sarou brevemente, lhe pedi me “enchinasse” como fazia suas curas. O homem me chamou para junto dele e me “diche” que nada me “enchinaria” enquanto fosse vivo e andasse de pé. Eis que já maltratado e perto da morte a mim se “achegou” como da primeira vez, e me chamou a ele respondente em segredo, e me disse que, pelo muito afecto que nele tinha feito “crescher”, me queria deixar as ditas palavras, que eram para o governo do mundo, e que quem se achasse com necessidade me havia de buscar, e que a ela respondesse. E me recomendou que as não “enchinasse” a ninguém , antes as deixasse pela minha morte a um filho ou filha que mais mas me- recessem. (Para os feirantes:) Falem comigo, digam do que se queixam, que meus poderes,se existem, vos darão resposta. (Aparece um Rapaz) Desembucha, rapaz, pois ouvidos que nos ouvem se haverão de tapar se desditarem teus males em cabaneirices cruzadas.
RAPAZ - Eu só queria que a... (Olha os feirantes com receio, e diz nome da amada ao ouvido da Curandeira.)
FEIRANTES - (Por não ouvirem) Hooooo...
CURANDEIRA - Calai-vos! Deixai-o continuar.
RAPAZ - Como vos disse, queria que a dita se me entregasse, e não o consigo...
CURANDEIRA - Hás-de fazer um cordão de mas- saroca que tu mesmo tenhas preparado, e nele dar cinco nós, dizendo a cada um: fulana, aqui te ato o teu braço direito, e ao segundo nó, aqui te ato o braço esquerdo, e ao terceiro nó, aqui te ato o teu pé direito, e ao quarto, aqui te ato o teu pé esquerdo, e ao quinto nó, aqui te ato o teu coração, para que “nam” possas dormir, nem repousar, sem primeiro comigo falares. Vai, meu filho. Faz o que te “enchinei”, e não te arrependerás! (Rapaz tira saco para lhe pagar) Nada peço. Dá o que entenderes à menina que ali tenho atrás, para cera de fazer velas que iluminem teus pedidos. (…)
(Sobe para junto do Curandeira um Homem que não pára de se coçar)
Não precisas dizer do que te queixas. Tens um grande ardor em toda a tua pele. É “fogo” ou “osagre”, como usa dizer-se. (Homem acena afirmativamente com a cabeça. Curandeira diz-lhe para se deitar sobre o estrado que se eleva no centro das bacias ardendo. Inicia a reza.) Jesus, Maria, indo por aquela via o filho da Virgem Maria, perguntou o filho ao pai: que fogo é aquele que ali anda, é ozagre e zazere e cobrão e cobrim, e bicho e bichoco de peçonhas, pois com que as curarão? Com unto de porco macho da bexiga e palhas alhas e pó da rua. (Executa.) Tragam-me olhos de sabugueiro verde e fresco, uma pouca de água, uma malga e três pedras de sal na dita malga. (Trazem-lhe as coisas pedidas, a correr. Curandeira pega nos três olhos de sabugueiro e molha-os na água que está na malga, continuando:) Secando o dito osagre, sabugueiro verde, verde honrado, que debaixo do chão foste criado, com a água do céu foste regado. Tu hás-de por bem tirar a este fulano este fogo e este ruborado, que está assado e abrasado e afrontado, pelo poder de Deus e da Virgem Maria rezemos três Avé-Marias! (Começa a ouvir-se a multidão a dizer a cantilena das Avé-Marias como se fosse tabuada. Vai diminuindo de intensidade, à medida que Homem se levanta, já sem coçeira. Quando este grita:)
HOMEM - Estou curado!

excerto de “Faldum”


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