18 nov , 1992
QUA
fora de cena Dez+Oito=Feira
18 nov , 1992
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fora de cena

Calendarização

18 nov
qua
  (FIL - Lisboa)

Dez+Oito=Feira

Foi uma experiência artística assente na dramaturgia de cordel do séc.XVIII, e concretizou-se numa produção em que foi realizado um grande desafio, quer em termos de concepção de figurinos, quer no respeitante à recriação de textos clássicos, numa perspectiva actual.

SANCHO – Que quereis ao Senhor Governador?
HOMEM – Senhor Governador, peço justiça.
SANCHO – Pois de que quereis que vos faça justiça?
HOMEM – Quero justiça.
SANCHO – É boa teima! Homem do diabo, que justiça quereis? Não sabeis que há muitas castas de justiça? Porque há justiça direita, há justiça vesga, há justiça cega e finalmente há justiça com velidas, e cataratas nos olhos.
HOMEM – Senhor, seja qual for, eu quero justiça, Senhor Governador.
SANCHO – Uma vez que quereis justiça: Olá, ide-me justiçar esse homem com três paus.
HOMEM – Tenha mão, Senhor Governador, que eu não peço justiça contra mim.
SANCHO – Pois contra quem pedis justiça? HOMEM – Peço justiça contra a mesma justiça. SANCHO – Pois que vos fez a justiça?
HOMEM – Não me fez justiça.
SANCHO – Até aqui ao que parece, o vosso requerimento é de justiça: ora andai, dizei de vossa justiça em três dias.
HOMEM – Isso é muito sumário.
MEIRINHO – Senhor, não saberemos o que pede este homem?
SANCHO – Homem, o que é que pediste?
HOMEM – Peço recebimento e cumprimento da justiça.
SANCHO – E de que comprimento quereis a justiça?
HOMEM – Seja do comprimento que for, que eu com tudo me contento.
SANCHO – Ó Meirinho, ide à gaveta da minha papeleira de Chorão da Índia, e entre várias bugiarias, que lá tenho, tirai uma justiça pintada que lá está, e dai-a a este homem, e que se vá embora.
HOMEM – Senhor, eu não quero justiça pintada.
SANCHO – Pois, beberrão, não sabeis, que não há nesta Ilha outra justiça senão pintada? Ó Meirinho, lançai-me este homem pela porta fora, que nenhuma justiça tem no que pede.
HOMEM – Viu-se maior justiça!

excerto do texto “Dez+Oito=Feira”

Ficha técnica e artística

Estreia: Novembro, Lisboa
FIL – 1ª Feira da História

Texto a partir de textos de teatro de cordel do séc. XVIII “Novo entremez dos dous mentirosos”, O grande governador da ilha dos lagartos” e “A menina discreta da fábrica nova”
Dramaturgia e encenação José Rui
Cenografia José Tavares Paulo Leão
Figurinos e adereços José Rosa
Direcção Técnica Luís Viegas
Música Carlos Clara Gomes
Elenco Ana Saraiva, Carla Torres, Carlos Clara Gomes, Carlos Silva, Hugo Torres, José Rosa, José Rui ,Miguel Torres, Pedro Marques e Raquel Costa