30 abr , 1979
SEG
fora de cena Com Duas Pedras Na Mão Trigo Limpo teatro ACERT
Classificação
Maiores de 4
30 abr , 1979
SEG

fora de cena

Classificação
Maiores de 4

Calendarização

30 abr
seg
21:00
  (Cine Tejá)

Com Duas Pedras Na Mão

Trigo Limpo teatro ACERT

1ª parte
1ª cena

Na esquerda baixa um camponês, Martinho, tenta comer uma sopa ainda demasiado quente.

MARIA MATEUS – (sem o ouvir; como que falando para si própria) Sabes Martinho…
MARTINHO – O que é?
MARIA MATEUS – Ontem o Governador mandou enforcar mais dois…
MARTINHO – (sarcástico) Só?
MARIA MATEUS – Ela era tão linda…
MARTINHO – (fingindo não a ouvir) Estou cheio de fome e não posso comer com quero. (explica) Eu gosto de comer depressa, muito depressa, quase sem respirar, sentir a barriga a encher, a encher…
MARIA MATEUS – (não o ouvindo) Desta vez foi muito menos gente assistir ao enforcamento.
MARTINHO – (assoprando a sopa) Maldita que não arrefeces!
MARIA MATEUS – Mas ela era tão linda… e ele também! Foram até à forca, sempre de mãos dadas. Estavam mesmo apaixonados um pelo outro…
MARTINHO – (cínico) Muito engraçado, não há dúvida. Agora estão na árvore, com o pescoço partido e a língua de fora (põe-se de pé e imita um enforcado) Deve valer-lhes de muito o amor… (sorriso cínico) Ainda estão de mãos dadas?
MARIA MATEUS – (sem o ouvir) Os guardas puseram-lhes a corda ao pescoço e… sabes tu o que ele fez?
MARTINHO – Começou a rir com cócegas…
MARIA MATEUS – …estendeu a mão e acariciou-lhe o rosto… Ela então inclinou a cabeça para o lado, contente com aquele gesto. Foi bonito!
MARTINHO – E esta sopa que nunca mais arrefece!
MARIA MATEUS – Foram enforcados só porque o Governador…
MARTINHO – Caluda! Não se fala mais nisso!
Dá aí o abanador. Já tenho a boca queimada cem esta maldita sopa!
MARIA MATEUS – (correndo rápida para junto dele, como quem diz um segredo) Eles amavam-se!
MARTINHO – Ai amavam-se?! E não sabes que o Governador não permite isso? É proibido amar! Compreendes? Mete isso bem na tua cabeçinha. Não se pode amar! Nem gostar! Uma simples flor que seja! Flores que vejas em qualquer lado. Destrói-as! Enterra-as! Queima-as! Aqui, por ordem do nosso… amado… Governador, não pode haver beleza nem amor. Compreendes?
MARIA MATEUS – Mas eles amavam-se tanto! Quando os guardas os descobriram, estavam deitados num prado macio e verde. Olhavam-se nos olhos e tinham entre as mãos… uma rosa vermelha!
MARTINHO – (estupefacto) Uma rosa vermelha?

excerto do texto “Com Duas Pedras na Mão”

Ficha técnica e artística

Estreia: 30 de Abril 1979
Cine-Tejá, Tondela

Texto: Orlando Ferreira Barros
Encenação: colectiva
Apoio cénico: Alberto Lopes
participantes: Amorim Pereira Lopes, Antero Coimbra , António de Jesus Rodrigues, Aristides, Arriel Pereira Alves, Carla Rebelo, Carlos Teles, David Coutinho, Eduardo Rodrigues, Emília Neves, Fátima Margarido, Fernanda Rosa, Fernando Rei, Jorge Anselmo Gouveia, Jorge Viegas, José Felosa, José Luís Pereira Lopes, José Manuel Viegas, José Rui, José Virgílio, Luís Carlos Rodrigues, Paula Amaral e Paula Torres.


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