26 set , 2001
QUA
fora de cena Chapa Cem Trigo Limpo teatro ACERT co-produção com Mutumbela Gogo e convidados

Calendarização

26 set
qua
  (Teatro Avenida, Maputo, Moçambique)

Chapa Cem

Trigo Limpo teatro ACERT co-produção com Mutumbela Gogo e convidados

do texto do espectáculo

Uma vez um homem deitou-se, todo, em cima da terra. A areia lhe servia de almofada. Dormiu toda a manhã e quando se tentou levantar não conseguiu. Queria mexer a cabeça: não foi capaz. Chamou pela mulher e pediu-lhe ajuda.

  • Veja o que me está a prender a cabeça.

A mulher espreitou por baixo da nuca do marido, puxou-lhe levemente pela testa Em vão. O homem não desgrudava do chão.

  • Então mulher? Estou amarrado?
  • Não, marido, você criou raízes.
  • Raízes?

Já se juntavam as vizinhanças. E cada um puxava sentença. O homem, aborrecido, ordenou à esposa:

  • Corta!
  • Corta o quê?
  • Corta essa merda das raízes ou lá o que é… (…)

Até que já um alguém, sabedor de planetas, disse:

  • As raízes dessa cabeça dão a volta ao mundo.

E desistiram… (…)

Até que falou o mais velho e disse:

  • A cabeça dele tem de ser transferida.

E para onde, santos deuses? Se entreolharam todos, aguardando pelo parecer do mais velho.

  • Vamos plantar a cabeça dele lá!

E apontou para cima, para as celestiais alturas. Os outros devolveram a estranheza. Que queria o velho dizer?

  • Lá, na lua.

E foi assim que, por estreia, um homem passou a andar com a cabeça na lua. Nesse dia nasceu o primeiro poeta.

extracto do conto “raízes” de Mia Couto

Ficha técnica e artística

Trigo Limpo teatro ACERT em co-produção com Mutumbela Gogo e convidados

Apresentação única 26 de Setembrode 2001
Teatro Avenida, Maputo, Moçambique 

A partir de textos de Mia Couto, António Lobo Antunes, Rui Nogar José Craveirinha e António Quadros
participantes Mutumbela Gogo, Trigo Limpo, M’ Béu Adelino Branquinho, Alfredo Semo, Alves Manganhela, Carlos Peninha, Carmen Custumes, Claúdia Andrade, Dadivo, Eliot Alex, Evaristo Abreu, Graça Silva, Helder Ntimane, Ilda Teixeira, Janet Luís, João Paulo Martins, Jorge Vaz José Paulo Nhancule, José Rosa, José Rui Martins, José Tavares, Lucrécia Paco, Maria Simões, Mariana Abrunheiro, Marlene,, Paulo Leão, Paulo Neto Pedro Lemos, Quiiné, Rogério Manjate, Ruy Malheiro, Samuel Machava, Sérgio Chuzane
Convidados Celso Paco, Ciro Pereira, Filipinho, Gil Rodrigues, Hortênsio Langa, Hugo Torres, João Maria Pinto, José Medeiros, Julinho, Maria do Céu Guerra e Miguel Cardoso

Espectáculo integrado em 40 anos teatrando maningue que decorreu de 21 a 30 de Setembro em Moçambique 25 anos do TRIGO LIMPO teatro ACERT, Portugal + 15 anos do MUTUMBELA GOGO, Moçambique


José Rui Martins

MOÇAMBIQUEREMOS SENTIR-NOS MUTUMBELAS

Entre as experiências de intercâmbio internacionais que, ao longo destes 25 anos, mais marcaram a vida do Trigo Limpo ACERT, Moçambique deixou sinais que, à partida, se constituíram como marcos naturais decisivos – o conhecimento de Mia Couto em 1993 e, logo em 1994, o encontro em Tondela com o Mutumbela Gogo.

Daí até hoje, múltiplas são as formas que temos vindo a utilizar para fortificar uma relação artística e solidária que nos faça sentir cada vez mais próximos. Encurtamos a distância do oceano com cada aventura que fazemos juntos.

Como disse António Quadros, nosso moçambicano de Besteiros, patrono deste projecto – “(…) O conjunto das Culturas dos Povos de todo o mundo, é a Cultura do Homem. Nós somos os seus herdeiros legítimos como qualquer outro povo. Por isso mesmo temos deveres para com ela. Deveres de dois tipos: Um, contribuir para o seu desenvolvimento; outro, extrair dela o que convém ao desenvolvimento da nossa própria cultura. Fazer “moderno” pelo moderno, arte avançada, etc., para se mostrar culto, é errado. Ao melhor, faremos sempre figura de provincianos de outras culturas. E, afinal o que é moderno? A escultura Maconde de 1979 é 60 anos mais moderna que o cubismo europeu de 1919. Será menos valiosa como objecto do nosso estudo? Já fizemos alguma prática que o confirmasse?”Como tão bem escreveu António Quadros, a arte não é uma forma de fazer. É, antes do mais, uma forma de estar em trânsito. É para confirmar e reforçar esta ideia, na e com a prática, que moçambiqueremos sentir-nos utilmente comprometidos com todos os companheiros de aventura que vamos descobrindo.

José Rui Martins


Mutumbela Gogo e Trigo Limpo

MUTUMBELA GOGO e TRIGO LIMPO

(2 vasos comunicáveis entre si...)

O Mutumbela Gogo surge em Moçambique (Novembro de 1986), numa altura em que existiam grandes tensões na nossa região. O nosso primeiro Presidente foi tinha sido assassinado. A guerra civil era um facto. As estradas para o interior de Moçambique estavam fechadas. A nossa economia era um desastre. Não se podiam importar filmes, e as salas de cinema estavam vazias. Uma das poucas actividades que aos moçambicanos ainda restava para fazer com poucos recursos, eram o teatro, a dança, a pintura, a escultura. A partir de 1982, começa a surgir um movimento urbano na cidade de Maputo, com produções de teatrais que enchiam as salas. O público começa a fluir de uma forma significativa, mas as peças eram esporádicas, e os actores

— amadores — ficavam muito tempo sem actividade.

E foi assim que um colectivo de produtores e actores (Evaristo Abreu, Lucrécia Paco, Adelino Branquinho, Graça Silva, João Manja, Vítor Raposo e Manuela Soeiro) empreenderam num projecto de teatro profissional para a continuidade do teatro e do grupo. No início foi complicado. Os outros grupos amadores já existentes acharam a nossa ousadia um atentado ao “socialismo”. Nessa altura apelidaram-nos de capitalistas, nome quase proibido em Moçambique… mas a nossa convicção era tão grande, que nada nem ninguém nos fez parar.

Então foi o tempo de inventar. Inventar tudo — histórias, temas, cenografias, adereços, dinheiro e não dinheiro… Foi um bom tempo este: tornou-nos criadores, obrigou-nos a olhar à nossa volta. E encontrámos tanto, e tantos: o Mia Couto, o Luís Bernardo Honowana, o Rui Nogar, o José Craveirinha, o Idasse Tembe, o Malangatana, o Roberto Chichorro, e as principais fontes de inspiração - o Homem Moçambicano.

As nossas reais personagens. Apostámos nos nossos escritores, e no nosso modo de os interpretar. A partir daí, o Mutumbela Gogo, serviu também de inspiração aos outros grupos de teatro. Os espectáculos, de uma forma geral, têm sempre uma mensagem, reflectindo o nosso tempo, o nosso desenvolvimento, as nossas alegrias, as nossas tristezas. Daí que o público adira, e comunique com elas.

O Mutumbela Gogo não está de costas voltadas para o Mundo, e tem participado em Festivais de Teatro em Portugal, Espanha, Suécia, França, Suiça, e em tantos outros eventos por esse mundo fora. Com o trabalho desenvolvido, conquistou-se um espaço de identidade para o teatro moçambicano entre fronteiras (Teatro Avenida e digressões por todo o país) e no exterior (onde o Mutumbela se viu reconhecido pela qualidade e originalidade do seu repertório).

Nestas andanças, encontrámos um amigo, O TRIGO LIMPO teatro ACERT. Não sabemos se foi amor à primeira vista, ou se seguíamos o mesmo caminho… pensamos que foram as duas coisas que aconteceram. A partir do nosso primeiro encontro, foi um namoro que nunca mais acabou. A identificação que nos une vai desde os temas que apresentamos até aos caminhos que em que, volta não vira, nos encontramos. Sem darmos a conhecer um ao outro os nossos projectos, quantas vezes ficamos surpresos, porque exactamente nesse momento o jogo dos textos, quer de um quer do outro grupo, se assemelham...

A nossa ligação é de tal modo intensa e presente, que é com grande alegria que nos reencontramos. E não haverá raios nem turbulências que nos possam afastar um do outro! Isto não é dogmático. Somos almas gémeas, produzidas no mesmo templo, e protegidas pelo AMOR.

O TRIGO LIMPO e a ACERT são os nossos dignos representantes nas terras Lusas, assim como nós somos os seus representantes aqui em Moçambique. Esperamos que, neste “40 anos teatrando maningue”, em Moçambique, continuemos a fortalecer os laços que nos unem.