06 out , 2000
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fora de cena Cadeiras Trigo Limpo teatro ACERT
06 out , 2000
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fora de cena

Calendarização

06 out
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Tondela  (Auditório 1)

Cadeiras

Trigo Limpo teatro ACERT

"Cadeiras” foi a concretização de um apurado trabalho de investigação literária sobre a obra de Lobo Antunes. Toda a dramaturgia resultou de um processo de colagem de situações que retratassem, num plano de dramaturgia aberta, as referências sociais e políticas do país durante o salazarismo.
É um espectáculo no qual a desmultiplicação dos personagens e a narrativa é complementada com situações teatrais em que a emoção e o humor se cruzam. A cenografia e o desenho de luz representam uma forte aposta criativa, ampliando as potencialidades da criação dos espaços/tempos teatrais.

sobre o espectáculo
Uma visão satirizada da história mais recente de Portugal.
Um grupo de “gaiatos” jovens exorciza as histórias dessa história, fazendo desfilar no palco interpretações e/ou representações de alguns dos seus personagens.
Cada um com a sua cadeira, o seu poder. Brincadeiras ao poder.
Partindo dos textos de António Lobo Antunes, o espectáculo recria, numa história possível, os nossos regimes, a nossa guerra, a nossa revolução, ouvindo de cada cadeira a sua sentença. Num jogo de poderes, como no jogo da cadeira. Agora...
É a tua vez...
Uma reflexão sobre o passado recente de Portugal pose ser revermos juntos algumas memórias desse passado. Da brincadeira ao tédio, da repressão ao medo, da pacatez da nossa rua à guerra em África, do nascimento de um filho ao afastamento de alguém muito próximo, da largueza e África à pequenez da repartição, da utopia ao desencanto, da falta de prazer ao direito a ser feliz...
A obra de António Lobo Antunes encontra-se povoada de muitas dessas memórias, de muitas pessoas com memória, de muitos objectos, situações, lugares... que nos avivam a memória.
Ao criarmos este espectáculo a partir da sua obra reinventámos um pequeno mundo, um teatrinho de cadeiras, onde deixamos reviver essas memórias de tudo.
Como alguém que, ao pensar que vai morrer, revê, em segundos, imagens de toda a vida. Tudo misturado como num sonho.
Mas ao sentir-se de novo vivo tenta afastar para longe essas imagens.
Foi aí, a esse longe, que tentámos ir buscar as memórias. e também longe, dentro de nós, e longe no que já vimos, ouvimos contar, sentimos ou vivemos.
Para podermos povoar, esse mundo de cadeiras, com gente. Uma gente diferente: um Portugal dos mais recente espectáculo do Trigo Limpo Teatro ACERT, de Tondela, por sinal um dos projectos mais interessantes, vivos e produtivos da descentralização teatral. O Trigo Limpo passou pelo Cinearte, onde representou “Cadeiras” (…)
O ponto de partida foi um achado: procurar nas obras de António Lobo Antunes textos para com eles criar.

Pompeu José

Ficha técnica e artística

Estreia 6 de Outubro de 2000
Auditório 1, Tondela

Texto a partir da obra de António Lobo Antunes
Dramaturgia e encenação Pompeu José
Cenografia José Tavares, Pompeu José
Música Carlos Peninha
Figurinos Pompeu José, Ruy Malheiro
Execução de figurinos Felicidade Café
Desenho de luz Luís Viegas
Técnicos Luís Viegas e Paulo Neto
Desenho gráfico, cartaz e programa José Tavares
Carrpintaria Sílvio Neves
Serralharia Rui Ribeiro
Fotografia e máscara Paulo Leão
Elenco Cláudia Andrade, Ilda Teixeira, Maria Simões, Miguel Torres, Pompeu José e Ruy Malheiro


Excerto do texto

ELE – A menina não se ofende, pois não, se eu lhe disser que é linda?
(Começa a despi-la baixando a saia e as cuecas deixando o rabo à mostra como se fosse para dar injecção. Entra um guarda.)
GUARDA – Que pouca vergonha vem a ser esta? (eles ficam imóveis) E tire daí a pata, sua besta, vamos lá a respeitar a autoridadezinha antes que eu o obrigue a respeitá-la a pontapé. (ela baixa a saia) E agora seus safados? Que tal uma multazinha, que tal uma estada no Governo civil para vos curar dos ataques de tesão em público?
Três dias de cama curam a tesãozinha num instante. Os bilhetezinhos de identidade. Os bilhetezinhos de identidade e os cartões profissionais. (Ao ver o cartão, o tom de voz torna-se respeitoso.) Este papel aqui quer dizer que você é doutor?
ELA 1 - É doutor, pois.
GUARDA - O senhor desculpe mas eu pensei que o senhor doutor e a senhora fossem um dos casais de tarados que aqui levam a vida a apalparem-se diante de todos. A gente tem ordem para não consentir em porcarias, vem cá muita criança, muita escola, o senhor compreende, e eu arrisco-me a perder o lugar se me puser com branduras: não podia adivinhar que o senhor fosse a pessoa de respeito que é. (Tira o chapéu.) Ó senhor doutor, pela sua saúde não dê parte de mim à direcção. Eu irrito-me por tudo e por nada, é uma desgraça, até comecei agora na caixa um tratamento para os nervos. (Procura nos bolsos.) Receitaram- me estes calmantes, o médico explicou-me que há mais fortes, cortou-me a bebida, o tabaco, o café. E mesmo assim ainda agora perdi a cabeça com os senhores, já vê.
ELA 1 - Escreva aí num papel o seu nome e o seu número. O meu pai é deputado na Assembleia Municipal, vai concerteza querer falar com os seus patrões. Ele tem muito orgulho nas filhas, não admite que as desconsiderem. E a sua ordinarice, sabe, passa as marcas.
GUARDA - Ó menina tenha dó de mim que se eu perco este emprego fico arranjado da vida. (Ela não liga. Ele senta-se, pega no lápis e num papel, e escreve o nome e o número.) Dou de comer a cinco bocas, a minha mulher não pode trabalhar por causa da tensão, volta e meia desata-me a inchar, não se aguenta nos cepos das pernas, leva os dias na cama como um trambolho, tenho de pagar a quem me tome conta dos filhos. A gente nem dinheiro para uma casa decente arranja, vivemos numa barraca emprestada, a minha mais velha adoeceu, se me expulsam daqui estou bem quilhado.
ELA 1 - Lembrasse-se disso antes, já que se mostra tão preocupado com a família.
GUARDA - Ó menina, ó menina… Pelos ossinhos da minha irmã que está na cova se tive a intenção de lhe faltar ao respeito.
(ela amachuca o papel e atira-o para o chapéu do guarda)
ELA 1 - Suma-se da minha vista seu estupor. Suma-se da minha vista antes que eu mude de ideias. (Para ele:) Sempre que há sarilhos ficas mais apático do que um boi de loiça.

excerto do texto “Cadeiras”