26 fev
SÁB
17:00
exposição Outras Importâncias Delfim Ruas Exposição de Delfim Ruas em torno da ideia de mitologia, histórica e pessoal, e do modo como vamos construindo novas narrativas a partir de outras, muito mais antigas, umas vezes factualmente documentadas, outras já desgastadas pelo passa-a-palavra de que também se faz o tempo.
Classificação
Maiores de 3
26 fev
SÁB
17:00
Exposição de Delfim Ruas em torno da ideia de mitologia, histórica e pessoal, e do modo como vamos construindo novas narrativas a partir de outras, muito mais antigas, umas vezes factualmente documentadas, outras já desgastadas pelo passa-a-palavra de que também se faz o tempo.

exposição

gratuito

Classificação
Maiores de 3

Calendarização

26 fev
sáb
17:00
2022
até
21
MAI
SÁB
18:00
Tondela  (Galeria ACERT)

Outras Importâncias

Delfim Ruas

Na Galeria ACERT, um conjunto de imagens aproxima-se destas histórias, algumas fortemente ligadas ao território tondelense, todas atravessadas por uma ideia universal que cruza espaço, tempo e narrativa para dar forma ao mundo em que cada geração vive. Nas paredes, as imagens vivem do que contam, sugerem e fazem questionar, mas também do diálogo que estabelecem entre si, transformando a sala numa peça única e efémera para ver até ao dia 19 de abril de 2022.

Calendarização

26 fev
sáb
17:00
2022
até
21
MAI
SÁB
18:00
Tondela  (Galeria ACERT)

Sobre a exposição

Outras importâncias

Como seriam os gigantes que ergueram monumentos fúnebres em honra dos seus defuntos e pavimentaram as estradas da Lusitânia? Quantas legiões romanas e colunas francesas terão batido o chão que vai do Rio Mondego até à Serra do Caramulo? O que terão testemunhado os últimos Teixos desta zona: terão estes visto quantas pessoas se manifestaram contra racionamentos, conflitos e injustiças? Onde se desconhecem fontes coevas vai-se assumindo e moldando com outras matérias-primas. Vão-se preenchendo as falhas com contos e vão-se construindo outras importâncias. Quando a estória vira mito, o que corresponde ao facto e o que terá levado à lenda?

Delfim Ruas, Outubro de 2021.


Sobre o autor

Delfim Ruas

Nasceu em 1989, em Viseu, quatro dias antes da queda de um muro. Licenciou-se em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto em 2012 tendo completado posteriormente o Mestrado em Ilustração pelo ISEC de Lisboa em 2015. Trabalha como ilustrador e concept artist e expõe regularmente, tanto a título individual como colectivo, desde 2009.
Concilia a prática da Ilustração com um outro lado sempre presente: o da investigação histórica.
Colabora com editoras nacionais como a Leya ou a Porto Editora, revistas como a Visão História e marcas como a Yorn. Também fez posters para cinema e integrou em expedições que levantaram património natural e cultural de Trás-Os-Montes a Marrocos no âmbito das actividades desenvolvidas pela associação Grupo do Risco.
Em 2019 ganhou o primeiro prémio do 12o Encontro Internacional de Ilustração de S. João da Madeira.
Delfim Ruas ilustrou o título Carolina Beatriz Ângelo. Um Pequeno Grande Gesto de Coragem, da colecção Grandes Vidas Portuguesas, uma co-edição Pato Lógico/Imprensa Nacional


Texto de Sara Figueiredo Costa

As paredes e o lugar são parte integrante de Outras Importâncias, assumindo-se enquanto corpo de uma linha narrativa onde o tempo histórico e a geografia de Tondela são pontos de partida para uma construção mais ampla, que se expande sem balizas cronológicas nem fronteiras geográficas. No princípio era o mito e dele nasceram as visões lendárias de um mundo em construção e expansão, fazendo da consciência da morte um fiel de balança entre o mistério e a necessidade de nos organizarmos socialmente. Às pinturas rupestres sucederam-se monumentos e memoriais, povoados como o Castro dos 3 Rios antecedendo o modelo romano que haveria de expandir-se por tão vasto território, parecendo sólido para a eternidade, como todas as ilusões.

Nesta cronologia não necessariamente rigorosa cabem lugares e momentos que reconhecemos, mas cabe sobretudo a ideia de uma continuidade histórica que deve tanto aos episódios que a abalam como ao modo afectivo (e tantas vezes baseado nos nossos próprios mitos) como a vamos narrando, uns aos outros e a nós mesmos. O Império Romano fez da crise uma ruína, mas também permaneceu, e outros impérios vieram ocupar--lhe o lugar de poder. Lendários ou não, os besteiros que deram nome ao território viram as suas armas proibidas pelo papado e a Igreja assumiu--se como base e topo, assumindo a reconstrução de um poder à prova de abalos como quem reinicia a história – e ainda assim, da Igreja de Canas de Santa Maria, só restou a fachada.

Entre equilíbrios instáveis e jogos de poder, a grande História sempre se contou do ponto de vista dos mais fortes, dos mais ricos, dos mais poderosos. Nenhum império dura para sempre, nenhum modelo é imune à vontade de mudança, por vezes em forma de revolução. E entre os mortos e feridos da guerra, de todas as guerras, tendemos a fixar os nomes dos generais, mas talvez sejam os soldados rasos e aqueles e aquelas que, em casa, aguentaram o embate do conflito, a guardar-nos as narrativas que o futuro quererá relembrar. A morte, afinal, não é exclusivo dos cenários bélicos e é provável que a capacidade de contarmos histórias seja o único gesto eficaz perante a disfunção do mundo e a nossa efemeridade.

O mundo, no entanto, vive-se e vê-se de qualquer ponto da sua trama e a grande História nunca foi a história toda. Visto de Tondela, o mundo ganhará raízes no território, mas não perde a imensidão nem a complexidade da sua existência. Os factos que aprendemos como indiscutíveis são, aqui, da mesma matéria que as histórias contadas de forma diferente por diferentes pessoas, as ilusões sobre a durabilidade de impérios e domínios, a capacidade de resistência à opressão que nos assiste sempre ou a rememoração de episódios como o da revolta popular que exigiu a distribuição dos cereais armazenados em Tondela (aqui mesmo, no lugar onde hoje é a ACERT). Aqui como em toda a parte, desequilíbrios imaginários e mitificações tentam furar a parede do tempo e a sua passagem inexorável. Às vezes, parecem conseguir e, se assim parece, é capaz de ser verdade.


Sara Figueiredo Costa
Fevereiro 2022


Imagens da Inauguração


galeria de imagens Delfim