18 set, 2021
SÁB
exposição Instrumentos de Lentidão Exposição de desenhos de José Paiva
Preço

Entrada gratuita

18 set, 2021
SÁB

exposição

gratuito

Preço

Entrada gratuita

Calendarização

18 set
sáb
21:00
Tondela  (Galeria ACERT)
18 set
sáb
21:00
até
20
OUT
QUA
23:00
Tondela  (Galeria ACERT)

Instrumentos de Lentidão

Exposição de desenhos de José Paiva

Com as canetas que uso, faz tempo, as Pilot sépia, ganhei o vício de ir desenhando, amiúde sem pensar o que desenhava, por dotar toda a atenção à escuta e à interlocução.

Esse não pensamento fazia acontecer formas de árvore, entrelaçados de riscos inúteis que no papel configuravam imagens marcadas pela dedicada atenção contemplativa ao modo com uma árvore é sempre, em si, um bom desenho, e merece nosso respeito e atenção.

Forjei com as árvores uma espécie de amizade silenciosa, sabendo-as essenciais, e imunes ao desgaste do tempo que a vida esquizofrénica em que vivemos anula. 

Esta amizade secreta com as árvores contribui para a procura da lentidão, como modo de resistência ao desgaste do tempo, que nos força a evitar a escuta e pela pressa nos embriaga a vida.

Os desenhos apresentados nesta exposição, misturam na vontade de voltar à ACERT, com o resultado lento destes tempos de afastamento forçado, tornando-se em abraços camaradas e lentos.

Na vida política de acção que me move, estes desenhos apenas se apresentam para sua fruição, sem outra pretensão que não seja a sua dádiva. 

José Paiva, setembro de 2021

Ficha técnica e artística

José Paiva
Nascido no Porto em 1950. 
Doutor em Pintura, Mestre em Arte Multimédia e Licenciado em Artes Plásticas – Pintura pela Universidade do Porto — Faculdade de Belas Artes. 
Professor Emérito da Universidade do Porto, Professor Jubilado da FBAUP. Investigador Integrado do i2ADS (Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade), pertencendo à sua Direcção. Integra a plataforma de investigação ID_CAI — IDENTIDADES -Colectivo de Acção e Investigação. 
Co-coordenador do movimento intercultural IDENTIDADES onde estimula o envolvimento em acções interculturais de índole artístico e cultural com comunidades em Moçambique, Brasil, Cabo Verde e Portugal.

Exposições individuais, desde 1983:
Brasil -Campina Grande e Recife;
Cabo Verde – Mindelo;
Moçambique – Maputo;
Portugal - Caminha, Celorico de Basto, Coimbra, Lisboa, Porto, S. João da Madeira, Tondela, Trofa e Viseu;

Organização e participação em exposições colectivas:
Brasil- Recife, Conceição das Crioulas e Salvador da Bahia;
Cabo Verde – Mindelo;
Espanha - Salamanca;
França – Pau;
Moçambique - Beira e Maputo;
Portugal - Alfândega da Fé, Aveiro, Baião, Beja, Braga, Castro Verde, Chaves, Cinfães, Coimbra, Ermesinde,  Lamego, Leiria; Lisboa, Marco de Canaveses, Matosinhos, Mértola, Peso da Régua, Porto, Paços de Ferreira, Santo Tirso, Tondela, Trofa, Viana do Castelo, Vila Flor, Vila Nova de Gaia, Vila Real e Viseu;


Texto do Autor

Desenho na lentidão – árvores. Embora sejam cor sépia, eu só vejo verdes. São pequenos pontos de mãos dadas em linhas, mas na minha perceção são manchas. O suporte é papel aquecido pelos mimos da caneta incansável, mas eu sinto fresco.

Fecho os olhos.

Repete-se Árvore nessa língua de palavra, imagem e sentir. Sou assaltada por memórias que sou. E inspiro. Expiro. Esse oxigénio que me dá.

Já vi pessoas ridicularizando: “ele conversa com árvore, abraça árvore, conversa com o rio, contempla a montanha”, como se isso fosse uma espécie de alienação. Essa é a minha experiência de vida. Se é alienação, sou alienado.
Ailton Krenak (i)

A minha experiência de vida com o algodão tem-me feito aprender. Primeiro conheci a história de criação do quilombo de Conceição das Crioulas (ii), no Brasil. Depois, na neve insular colhemos ‘sementes da resistência’ nos algodoeiros selvagens no deserto desta ilha de São Vicente, Cabo Verde. Aqui não houve plantação de algodão nos séculos da ganância da escravatura, mas para aqui voaram as sementes, levadas pelo vento, ou no bolso de alguém que fugia. Hoje resistem sem cuidados, sem ninguém. A chuva teima em vir 2 dias por ano. Em 2021 ainda. Os agricultores repetem – Txuva ta bem, poc ô txeu [ A chuva virá, pouca ou muita (iii)]. Mais parece Marte, com apenas 0,9% de superfície terrestre da ilha cultivada, o resto é mar e são montanhas nuas, desvelando o futuro de Gaia (iv).

Engolimos essa resiliência das sementes que colhemos, e plantamos algodão, com mandioca e feijão para desaprender a escravidão antiga, mas também a de hoje no computador e no consumo, no alheamento. Colhemos algodão, colhemos pragas, colhemos a esperança de chuva. Estamos a aprender a semear, cuidar a terra, a cardar e a fiar o algodão, e aos poucos a tecer. No silêncio da montanha que se debate com a turbulência das nossas vidas capitalista, colonialistas, patriarcais, estamos também a aprender a lentidão.

O Paiva sabe que venho dos meus pais da juventude agrária e revolucionária. Também com a ACERT se cruzaram nas lutas do desenvolvimento local em Portugal.

Talvez pela árvore, talvez por Tondela, desde que veio o convite para o texto, a minha mente não sossega, já com medo do parto que ainda não chegou. O Paiva pediu-me um texto – sobre o que quiseres, eu estou à procura da lentidão. E com este convite, fiquei grávida de saudade do meu pai.

há uma arvore que fala todas as línguas
há uma árvore com quem todos falam
há uma árvore que gostava de soltar as suas raízes e inventar um pouquinho do
elo prateado que percorre todo o universo
“Árvore, templo vegetal” Oriana Brás

Estico-me em asana da árvore – uma postura de equilíbrio, que promove o aterramento, o enraizamento. Sento-me de novo de madrugada a escrever, o que me ocupa a mente é o movimento do meu pai, plantando a placenta do meu filho Sami, estrumando a oliveira mais nova do terreno, plantando tantas árvores com a minha mãe em Sangalhos, em Santo Tirso, no Couto Esteves e no Vale da Rosa. Hoje ela come os pêssegos que a terra lhe dá, sussurrando que o pai plantou, mas já não comeu.

Estou lavada em lágrimas. Relembro a lentidão do próprio crescimento dessas árvores, dos vinhos com que regámos árvores mensageiras dos antepassados em Moçambique. Lembro-me das árvores que entre muitos abraçamos, em Tarrafal de Monte Trigo, o mais antigo baobá em Santo Antão, ou a caminho do estádio em Delfos, Grécia, que abraçamos juntos uma árvore e ao encostarmos o ouvido, ouvimo-la ranger. Conheço a voz, mas que língua essa de nossos antepassados que não chegamos a compreender?

“Antes que qualquer árvore seja plantada
ou qualquer lago seja construído,
é preciso que as árvores e os lagos
tenham nascido dentro da alma.”
Rubem Alves

A árvore é esse barco de memória que se entranhou no corpo de plantar. A obra de Paiva, tem esse ritmo balançante de quem procura e conecta nas geografias da cumplicidade, estrumando raízes que se aprofundam e lançam em ramos firmes de pensar e fazer junto.

Dentro da sua alma, nasceu há muito este desejo construir Identidades.

Plante-se a árvore.

Rita Raínho

 

(i) Krenak, Ailton (2020). ‘O amanhã não está à venda’. Companhia das Letras Loc 68.
(ii) O quilombo de Conceição das Crioulas no estado de Pernambuco Brasil, conta a sua génese com a história de um rebelado e seis negras que cultivaram e fiaram algodão, vendendo na cidade de Flores e comprando o seu território de resistência.
(iii) Tradução livre de crioulo da ilha de São Vicente, Cabo Verde.
(iv) Na década de 70, James Lovelock e Lynn Margulis formularam a Hipótese Gaia pensando uma visão holística do planeta Terra de co-evolução e regulação, um sistema ecológico global que funciona organicamente, em que fica patente que aquilo que se vinha tratando de modo separado (seres vivos, oceanos, atmosfera, solos, formam uma realidade indivisível.


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