27 nov , 2004
SÁB
fora de cena Mamã Lusitânia Trigo Limpo teatro ACERT
27 nov , 2004
SÁB

fora de cena

Calendarização

27 nov
sáb
21:45
Tondela  (Novo Ciclo ACERT)

Mamã Lusitânia

Trigo Limpo teatro ACERT

“Cabaret com Isqueiro”

Mamã Lusitânia tinha um isqueiro e perguntava-se a si própria: Pode-se fazer um cabaret a partir de um isqueiro?
Dá para pôr lume a alguma coisa?
Quem tem tomates pra dar gás a uma actriz incendiaria?
Qual o porquê deste meu instinto pirómano?
E aliás, por que arde a serra?
É a serra uma metáfora sexual?
Quem vai receber o dinheiro do seguro?
Quem faz arder os oleodutos iraquianos?
Precisa do meu isqueiro a resistência?
Quem dá lume ao primeiro ministro?
Alguém sabe o que é o fumo do caroço?
Eu tenho lume no olho e você tem fogo no cu
Não acha que fazemos um lindo casal?
São todas estas perguntas inflamáveis?
Ora, o que eu digo é:
Prende-te ao cabaret com isqueiro
E arde eternamente no meu inferno lusitano

Ficha técnica e artística

Interpretação: Ilda Teixeira e Carlos Peninha
Texto: Carlos Santiago
Encenação: Marta Pazos
Música original: Carlos Peninha
Assistência de encenação: Ruy Malheiro
Cenografia: Zé Tavares
Figurinos:Ruy Malheiro
Desenho de Luz: Luis Viegas
Técnica: Paulo Neto/Luis Viegas
Cartaz e programa: ZéTavares
Fotografia: Carlos Teles
Vídeo: Zito Marques
Produção e Secretariado: Marta Costa


Texto da Encenadora

A ENCENAÇÃO
“ o teatro não é escravo do poeta, mas sim da sociedade.”
Bertold Brecht

O Efeito Mariposa
Há uma coisa muito engraçada neste projecto: é que nem o texto nem a encenação são feitos por portugueses. E vocês perguntam-se como é que alguém que não é português, pode fazer um cabaré sobre a realidade portuguesa? A resposta é: o humor. Esta é uma peça idealizada a partir do humor como a solucão em tempo de crise. É isto que nos une. A capacidade de curtir com a realidade.

O cabaré permite uma liberdade que poucos códigos teatrais oferecem.

Eu não posso falar profundamente do cabaré alemão, não vivi em Berlín nos anos 30. Nem do francês, no entanto, ter-me-ia encantado ver o espectáculo que fazia La Goulue no Mouline Rouge. Nem sequer do cabaré português, dos botequins vadios. Mas posso falar sim do cabaré galego, o porquê da minha eleição desta forma de expressão e o porquê do público precisar de ouvir o que a gente de teatro pensava do Prestige e da Guerra do Iraque. O cabaré na Galiza ressurgiu como anteriormente durante uma grande crise na qual a sociedade não tinha uma visão real do que se passava. A censura não permitia que tivessem outra óptica. Por isso nós fomos os cronistas do momento. As pessoas iam aos espaços clandestinos, ao teatro da noite para se informar e rir-se da situação surreal que estávamos (e continuamos)a viver. Esse é o nosso trabalho. Porque também nós, quando subimos ao palco, temos o figurino salpicado de sangue e os sapatos manchados de petróleo.

Em Portugal também acontecem coisas ...
Isso faz com que não sejamos muito diferentes.
Mamã Lusitânia é um espectáculo sobre vocês.
Mamã só sustém um grande espelho onde vocês se vão descobrir,
Assim riam, se podem e se não podem, olhem para o chão...

A Corda Bamba
Há que partir da premissa de que eu sou puramente Kantiana. Aliás, sou actriz e encenadora ou como diz uma grande amiga: encenatriz. Esta é uma premissa a destacar porque eu parto do actor como criador. Adoro ver pessoas em palco, por isso gosto que o actor não se transforme em personagem, mas sim que permaneça lado a lado com ele e assim não corra o risco de converter a interpretação num acto de puro artifício, em algo próximo à desumanização. No cabaré, o actor dirige-se ao público com sinceridade, de igual para igual, utilizando a sua própria linguagem. O trabalho consiste em fazer com que no palco se veja uma pessoa que é actriz brincando a ser personagem. É um trabalho na corda bamba.

Na Mamã Lusitânia, o autor e a encenatriz tentaram construir a história em conjunto com a actriz, estimulando ao máximo o desenvolvimento das suas potencialidades.

Este espectáculo foi realizado em três fases. Primeira, formacão em técnicas de comédia e de cabaré, segunda, com base nas improvisações, criaram-se e escreveram-se as cenas e na última, fez-se a montagem do espectáculo.

O cabaré é um código maluco em que o actor joga com muitas técnicas. Mamã Lusitânia compõe-se de 14 quadros. Cada quadro está encenado com uma chave diferente, o bufão, o clown, a comédia, a linguagem cinematográfica e televisiva, o heavy metal, o teatro do absurdo, o teatro de acção, o circo... Cada um destes pequenos episódios foi sempre trabalhado a partir do jogo do corpo e interpretados de forma autónoma, independentes da trama. Esta fórmula resulta quando a peça é sustentada, como neste caso, por uma actriz de raça e um músico maluco.

Ilda Teixeira é um diamante. Acredita no que faz, tira prazer disso e oferece-o ao público. É generosa, versátil, sarcástica e hilariante. Tremendamente orgânica, esta actriz conta com o contraponto de Carlos Peninha, grande músico e soberbo cómico (apesar da sua resistência em acreditar nisso).

Ela tem lume no olho e ele fogo no cú. Eu acho que fazem um lindo casal.

O resultado é um espectáculo atractivo, divertido, de humor sarcástico e real. Um espectáculo feito com os sentidos. Concebido para agarrar e fazer curtir as plateias mais desprevenidas.

O Síndrome de Estocolmo
Há outra coisa engraçada, o Trigo Limpo e eu nacemos os dois em 1976. Portanto comprendemo-nos muito bem. Trabalhar nesta casa foi espectacular. Dei tudo o que havia em mim e recebi muito mais. O Trigo Limpo - Teatro Acert e a sua gente são uma fábrica de sonhos.

Só posso dizer... gracias!

Marta Pazos

 

 


Texto do Autor

Saying those sentences aloud gives pleasure.
She locates something found in the world’s structure.
Kathleen Fraser

Este texto foi escrito para uma mulher. É, portanto, uma declaração de amor. Eu fui educado numa escola católica, totalitária e machista e não sou capaz de ver uma mulher de um ponto de vista real. Procuro fazê-lo, mas nem sempre consigo. A certa altura é complicado modificar o software metafísico com que fomos formatados e só nos restam as perspectivas ultra-românticas para encarar a escrita. Uma mulher é para mim quase sempre um animal mitológico, como as sereias que atraíam o Ulisses contra as rochas, entoando aquela melodia irresistível que o herói só podia ouvir a emanar do seu próprio peito. A mulher está sempre ali para conformar o herói, como um espelho acústico que devolve ao homem exactamente o seu estatuto heróico. Fantasias destas constituem a típica contribuição cultural do machismo à historia da humanidade. É preciso, como escritor, agir contra si próprio, pois esta e outras estruturas do mundo estão sempre lá dentro à nossa espera. É preciso, por sua vez, experimentar-se como espelho e propor um mito onde uma mulher possa rever-se na condição de heroína.

Aplico uma técnica desconstrutiva: uma mulher tem braços, pernas, mamas, cabeça e outras partes semioticamente interessantes, partes carregadas de significados e opressões, de mutilações. É por aí. Um relato poliédrico através do qual fornecer uma transgressão sexual dos pontos de vista. Será que é possível um heroísmo feminino, ou talvez o heroísmo seja já uma mentalidade demasiado masculina? Só a Mamã Lusitânia é que sabe.

À partida, os dois tínhamos algumas coisas em comum. Ela também nasceu em 1966 e portanto, segundo o horóscopo chinês, o seu signo, como o meu, é o cavalo. Aliás, também nasceu numa ilha onde ainda há tiranossauros a dar cabo do território, embora a Madeira seja uma ilha rodeada de oceano por toda a parte e a Galiza seja uma ilha entalada entre o Atlântico, a Espanha e Portugal, uma outra classe de mares. Portanto os dois nos movemos nas fronteiras extremas da cultura portuguesa. Cada qual define a respeito dessa cultura uma relação de amor-ódio. Ela, como madeirense, encara Portugal desde a perspectiva do Rabo de Peixe, bairro de lata que passa por ser o lugar mais pobre do país, onde os homens pretender-se-ão mais machos por ter um filho a mais do que o vizinho. Eu, como galego, encaro Portugal desde a perspectiva desse tabu histórico, cultural e linguístico que a Galiza desempenha no mesmo centro da identidade portuguesa. Isso não nega o nosso amor por esta cultura que de maneira visível ou subterrânea também faz parte de nós, e de certo modo, o texto que nasce deste nosso encontro só tem legitimidade a partir desse sentimento comum.

Portanto, já disse, o tal texto foi escrito para uma mulher e é uma declaração de amor que se calhar é mesmo útil para ela, eu ou vocês, localizarmos qualquer coisa de valioso na estrutura profunda do mundo.

Carlos Santiago


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