22 dez , 1985
DOM
fora de cena Cor De Burro Quando Foge Trigo Limpo teatro ACERT
22 dez , 1985
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fora de cena

Calendarização

22 dez
dom
Tondela  (Espaço Cultural ACERT)

Cor De Burro Quando Foge

Trigo Limpo teatro ACERT

Em Portugal existe uma forte tradição popular marcada pelo conto.
Transportar o espírito inventivo e imaginativo do conto para o campo teatral é: pôr as coisas no seu devido lugar.
O conto tem, na origem, uma forte componente teatral; devolvê-lo ao palco é, não só uma aventura emocionante, como um percurso que é urgente continuar a percorrer.

“cor de burro quando foge” é o que nós habitualmente chamamos ao abstracto e ao que queremos esconder. O texto, na adaptação, sofre uma actualização que tenta torná-lo mais fácil de mastigar…
A história é simples:
“o rico, que tudo sabe, pode e manda, é majestosamente enganado pela imaginação e poder criativo do outro (o pobre)."

Ficha técnica e artística

Estreia: 22 de Dezembro
Espaço Cultural ACERT, Tondela

Adaptação livre de um conto tradicional português
Texto e encenação: José Rui
Luz: Carlos Alcindo, João Rei, Jorge Coimbra e Luis Carlos Coimbra
Figurinos: Ana Bernardete
Adereços: José Augusto
Elenco: Ana Isabel Carvalho, Ana Saraiva, Carlos Manuel, Carlos Silva, Élio Antunes, Ilda Silva, João Almiro José Rui, Luis Carmo, Luis Melo, Nuno Café, Teixeira de Matos e Teresa Coimbra.


Excerto do texto

NETO – Conta-me uma história, avó!
AVÓ – A avó respondeu-lhe que esperasse, que estava enrolando o novelo.
“Ajuda-me, que logo te contarei a história!” – disse ela.
NETO – O neto disse o que habitualmente as crianças pensam mas que educadamente costumam guardar:
“Vocês os adultos são sempre a mesma coisa! Quando vos pedimos alguma coisa, pedem sempre outra em troca.”
AVÓ – Que modos, menino! Que forma feia de falar à sua avó.
NETO – A avó repetiu as frases habituais nestas situações. Por fim lá se resolveu…
AVÓ – Pronto, vamos então à história…
NETO – A avó arrumou o novelo, chamou-me para junto dela e começou a história, como de costume: “Era uma vez…”
AVÓ – …Dois compadres…
(Luz baixa de intensidade nos dois planos onde se encontravam a avó e o neto. Eles saem. Entra actor.)
AVÓ – Era uma vez dois compadres. Um muito rico. (tiro) O outro muito pobre. (tiro) Ora acontece que o pobre, querendo apanhar o dinheiro ao rico, disse pr’ á mulher…
POBRE – (Espera que a mulher apareça de dentro de casa e sussurra) Sobe, mulher, agora somos nós, vem para cima. O senhor já nos apresentou.
MULHER – (ainda escondida) Não saio! Então para vocês houve tirinho a apresentar-vos e para mim apenas falou: “a mulher” Não subo se não houver tirinho.
POBRE – (para o actor) Ó meu senhor dê lá o tirinho que ela cala-se. Teimosa como é, não irá deixar seguir o argumento enquanto tal não fizer.
ACTOR – (tirando texto do bolso) Mas aqui no texto da peça diz: “Ora acontece que o pobre, querendo apanhar dinheiro ao rico, disse pr’á mulher…” E depois diz à frente, como anotação: “Surge mulher do pobre que lhe responde, dois pontos! E começa logo o texto dela, que diz: …”
MULHER – (Ainda dentro de casa) Pare lá com isso. Querem lá ver agora que ele vai dizer o texto que me cabe a mim?
POBRE – (para o Actor) Chegue-se cá! Chegue-me cá o seu ouvidinho. é uma vergonha estarem aqui as pessoas a ver este vergonhoso espectáculo. Se ela quer o tiro para começar, dê-lo lá. É mais tiro menos tiro.
RICO – Eu bem sabia que não me devia misturar com esta gente. Não se sabem portar correctamente em lado nenhum. Vou-me embora. é uma vergonha!
ACTOR – (para o rico) Um momento, por favor. Tudo se irá resolver. O autor não irá levar a mal que eu aumente um tiro ao texto. por outro lado, já se dão tantos tiros a mais neste mundo, que este passará, concerteza, despercebido. (para o público) Em nome desta companhia “Faz de Conta”, apresento-vos, senhores, em meu nome, e de todos os elementos , as minhas mais sinceras desculpas.
A função vai continuar…

excerto do texto “cor de burro quando foge”


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