Entrevista Pedro Sousa | Na Xina Lua

Pedro Sousa é ator do Trigo Limpo teatro ACERT, encenador e um dos dinamizadores do grupo juvenil Na Xina Lua – Grupo de Teatro da Escola Secundária de Tondela –, um coletivo que nasce e cresce dentro da ACERT como espaço de criação e aprendizagem. Em maio, sobe ao palco o novo espetáculo do grupo, “Tulpa”, uma criação a partir do conto de Mário Coelho, integrada no projeto PANOS do Teatro Nacional D. Maria II. Em conversa com Pedro Sousa, mergulhámos nas motivações, nos bastidores e na energia de um grupo que transforma o palco num lugar de escuta, descoberta e pertença. Porque há histórias que se contam à volta de uma fogueira… e ficam connosco para sempre.
O que te motivou a escolher o conto “Tulpa”, de Mário Coelho, como base para este novo espetáculo?
Setembro é um mês de novos recomeços. Recomeçam as aulas e recomeça o Na Xina Lua. Este ano, o grupo optou por retomar o projeto PANOS do Teatro Nacional D. Maria II. Recebemos três textos de três autores diferentes onde só podíamos escolher um. Discutimos, fizemos improvisos, voltámos a discutir, fizemos uma votação e ganhou a “Tulpa”. A “Tulpa” agora pertence a todos, e em boa hora ganhou.
A história decorre à volta de uma fogueira e parte de uma conversa entre desconhecidos. Que temas e emoções surgirão?
Um festival de música que se passa num bosque, cinco adolescentes a acampar, e onde por vezes aparece uma estranha figura. O mais assustador não é esta estranha figura, o mais assustador são as conversas, as partilhas, as dúvidas, os receios e as histórias que contam entre eles. A adolescência consegue ser assustadora e há volta de uma fogueira ainda mais.
Este espetáculo envolve um elenco numeroso e muito jovem. Como é conduzir um processo criativo com tantas vozes e energias diferentes?
A magia e a beleza do teatro é a não existência de fórmulas químicas, de teoremas de Pitágoras, de regras gramaticais, só existe a imaginação e a criatividade sem nunca descurar o mais importante, o trabalho. Os jovens com a sua rebeldia e os seus constantes porquês ajudam-nos a refletir no porquê de algumas propostas e sugestões. E todos, neste processo, neste grupo, temos um amor comum. O teatro. E quando existe isso, o difícil torna-se fácil. O impossível deixa de existir.
Qual foi o maior desafio durante os ensaios de “Tulpa”? E qual foi o momento mais mágico até agora?
Acredito que os maiores desafios ainda estão por vir – estrear na estufa da Escola Secundária para o júri do PANOS e depois na ACERT, no auditório cheio de gente, será algo que ficará sempre na nossa memória. É sempre mágico quando vejo gente tão jovem a representar, a dizer texto com tanta verdade e a fazer-me acreditar que os valores presentes no teatro são importantes. Quando estes atores se entregam com “unhas e dentes” a magia acontece e parece que estamos ao seu lado naquele bosque escuro e fantástico.
O grupo Na Xina Lua tem vindo a afirmar-se como um espaço de criação e aprendizagem dentro da ACERT. Como descreverias o espírito deste grupo?
O Na Xina Lua é um grupo que é como uma família. Os mais velhos ajudam os mais novos e a partilha de saberes e experiências é uma constante. Existe um espírito de união, de grande camaradagem com uma alegria e boa disposição sempre presente.
Em que medida o espírito comunitário da ACERT influencia a identidade do Na Xina Lua?
Trabalhar com e para a comunidade faz parte do ADN da ACERT. A ACERT reinventa-se ano após ano com a chegada dos jovens, quer seja no JUDAS, no Na Xina Lua como até nas oficinas de Verão para crianças. O Na Xina Lua, por estar durante 9 meses em residência artística, absorve a identidade e os princípios que estão enraizados na estrutura da ACERT. Valores como a entreajuda, a partilha, a união, estão na génese da ACERT e são valores que queremos passar para os mais jovens, neste caso para o Na Xina Lua.
O que é que o público pode esperar deste espetáculo?
“Tulpa” é um espetáculo que parafraseando Fernando Pessoa “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Um espetáculo comum com linguagem moderna e inclusiva e visualmente com impacto. Nada como virem assistir a um espetáculo composto por jovens entre os 12 e os 17 anos, com uma multiplicidade de personagens e com uma entrega apaixonante ao teatro e à arte da representação.