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Crónica de Valter Hugo Mãe
Crónica de Valter Hugo Mãe
O Fascismo dos bons homens


Os livros são-nos devolvidos generosamente pela capacidade de cada leitor os manter vivos, e, por vezes, os leitores são também criadores.


Com o tempo, os livros que escrevemos são sobretudo aquilo que os outros têm a generosidade de nos devolver. Quero dizer, ocupados que vamos com novos textos, anos passando, os livros que outrora foram o centro absoluto dos nossos dias e do nosso pensamento existem sobretudo pela reação daqueles que, nunca atrasados, acabaram de os ler e sentem tudo agora, vigente, intensamente.

Os livros são-nos devolvidos generosamente pela capacidade de cada leitor os manter vivos e, por vezes, os leitores são também criadores. A reação que têm vem na forma de outra obra, como se um livro já contivesse em si esse sonho. Assim acontece quando o Trigo Limpo - Teatro Acert leva ao palco uma adaptação de a máquina de fazer espanhóis, romance que vi editado em janeiro de 2010 e que me tem oferecido a mais gratificante experiência com uma infinidade de gente.

Muda muito a nossa cabeça quando subitamente um texto que escrevemos nos cria certa e imediata intimidade com desconhecidos. É o que sinto com a máquina de fazer espanhóis. Tantos dos seus leitores se abeiram de mim já amigos, desarmados, confiando com uma candura que quero muito merecer e respeitar. Talvez todos os livros esperem por isso, não sei. Mas sei que o carinho dos outros pelo que fazemos é um carinho que sobra para nós mesmos, exatamente como se fôssemos amigos. Isso é impagável.

O que faz agora o Trigo limpo é da ordem do amor porque me traz muito afeto, porque me honra, porque me humilda. Com encenação do Pompeu José, que também interpreta, um conjunto de gente muito jovem corre o risco de se colocar na pele dos mais velhos, sem meninices estapafúrdias, apenas a ternura e tragédia que compõem as histórias dos que vão chegando ao fim. Um grupo de jovens que nos mostra como os mais velhos podem ser, com as suas tristezas profundas e alegrias epifânicas, entre o frustrado e o esperançado numa completude qualquer.

Fiquei maravilhado com o trabalho que o Trigo Limpo apresenta.
Não podia esperar receber o meu livro devolvido desta forma, simultaneamente tão competente e amável. Impressionou-me muito que a história se tenha mantido, sem atropelos nem agressões. O corte que fazem no livro é muito bem feito, atalhando pelos diversos assuntos e acontecimentos, mantendo toda a sua plenitude. Percebemos bem o impasse do que pensam os habitantes daquele lar, percebemos bem como esse impasse pode definir o país. Rimos e ficamos emocionados, porque a desgraça é triste mas pode ser trapalhona, ridícula, ternurenta. Rimos muitas vezes para nos segurarmos. Para que enfrentemos.

Na verdade, o retomo que nos dão do nosso trabalho, quando assim, é um convite a tudo. Um convite a continuar, a escrever mais, procurar ser melhor, fazer tudo melhor, dos textos à comida, à educação cívica, ao gostar de alguém. É um convite a gostar. Voltamos a casa com vontade de colocar em cada vazio um sinal contrário. Porque momentaneamente estamos repletos. Fortes para muito mais do que o habitual.

Uma senhora veio dizer-me que leria imediatamente o livro depois de ver a peça. Queria demorar-se entre as personagens. Chegar mais perto. Como pudesse subir ao palco e ver melhor, repetir, ver outra vez, ver por dentro da cabeça de cada um. Precisava do livro. Dizia-me assim. Precisava do livro. Queria saber se eu levava algum debaixo do braço. Ficou especada numa urgência qualquer. Ia levantar-se cedo, no dia seguinte, para correr a Viseu, a Coimbra, ao Porto, onde fosse, até poder conhecer o ponto de partida daquela peça. Respondi-lhe que me suscitou também um pouco essa necessidade. A de regressar a um lugar imaginário que, tendo conhecido bem, me assomou à memória com grande saudade. Mas eu carrego o drama de ter esperado muito mais do texto do que ele é. Porque nenhum livro corresponde à amplitude da experiência de escrever. O livro é um resultado pequeno dos anos longos que ocupamos com ele. Estarei sempre em desvantagem perante quem não espera nada.

Em certo sentido, uma encenação brilhante como a que o Trigo Limpo faz agora é o modo mais prudente para que eu, enquanto autor, regresse ao meu livro. Porque já regresso como se pudesse ter as opções partilhadas com os outros, fazendo com que aquilo que inventei seja menos imaginário e corresponda a uma muito menor solidão. Porque a criação desdobra-se, completa-se, e isso tem o significado retumbante de estarmos em companhia. Há um entendimento. O Pompeu José e aquela gente toda ali de Tondela, entenderam muito bem o que quis com esta história. Agradeço-lhes muito por isso.

Saí a encomendar, encarecidamente, um candeeiro igual ao do senhor silva. O Zétavares fez, com o Pompeu, uma cenografia admirável. A música de Filipe Melo foi rigorosa na melancólica traquinice que se esperava. Ficarei para sempre com uma versão enriquecida do meu próprio livro. Passou a ter uma dimensão bem mais tangível. Como se tivesse passado a ser realidade.
Uma realidade bastante, sem dúvida alguma.

Em Jornal de Letras de 22 de janeiro de 2014

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2014-01-22
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