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Esclarecimento de José Rui Martins
“Andar nas Nuvens” – o apontamento que desejo que conste sobre a calúnia provocatória de Daniel Abrunheiro
Ao longo de trinta e um anos de actividade artística vejo-me, pela primeira vez, confrontado com uma calúnia relativa a um “roubo” de palavras e de “autoria” no âmbito da criação do espectáculo “Andar nas Nuvens”.
1º - Começaria por referir que trabalhei profissionalmente com Daniel Abrunheiro “somente” cerca de um ano na ACERT, tendo reconhecido, desde a primeira hora, o seu talento, e procurado (enquanto actor, encenador ou agente cultural) conceder à sua obra toda a dignidade possível. Aliás, a nossa ligação extravasou os limites de um mero vínculo artístico para se transformar numa relação de amizade e de estima fraternal. Mais do que com "artistas" é com amigos que, hoje e sempre, gosto de viver.
2º - A nossa ligação artística ganhou forma, sobretudo, no palco, particularmente nos espectáculos "Soltar a Língua" e "Cantos da Língua", bem como na representação teatral "Materna Doçura", ocasião em que lhe propus uma parceria ao nível da dramaturgia e da componente poética, devidamente mencionada na ficha artística. Sobre esta cumplicidade, notaria o próprio Daniel Abrunheiro: “Quem tirou da rocha bruta do romance as finas estátuas-personagens da peça foi o senhor padre José Rui. Eu só oficiei, sacrista, incensando que sim. (…). Depois, é bem certo que redigi de minha boa mente algumas escrituras sem ele. Mas foram só letras. Isto seja: palavras ri(t)madas que, depois, uns senhores chamados compositores transformaram em canções. Músicas. E mais umas quantas sem pauta futura de que outro senhor, convocado a Tondela por telefone, fez polifonias.”
Saber que pude contar com o envolvimento artístico e humano de Daniel Abrunheiro, que contribuí para a divulgação dos seus textos com o maior empenho e igualmente que, em todos os momentos, as suas funções mereceram a visibilidade pública devida, constitui para mim um motivo de satisfação, mesmo após a sua ingrata e truculenta réplica.
3º - Às insinuações provocatórias e caluniosas dos "roubos" intelectuais ou dos "aproveitamentos" artísticos reajo com os e-mails que, em diversas situações, me foram por ele endereçados: Mail de 20 Janeiro 2006: Grande Zé: um primeiro texto para o Fran. Chama-se Canto da Língua´. É um jogo aparentemente infinito de palavreado. Vou mandar mais. zé, outra... Mail de 29 Janeiro 2007: Zé Rui: ontem escrevi isto. É um texto português sobre a língua portuguesa. E é p'ra ti. Abraço… e ainda de 29 Janeiro de 2007: e hoje de manhã escrevi este. este e o anterior - imaginei-os ditos por ti. abraço.
Apesar de me ser difícil conceber a escrita como um exercício hipócrita, sou obrigado a duvidar da autenticidade dos sentimentos por ele manifestados, que se contrapõem de forma gritante ao baixo nível cívico e intelectual das suas mais recentes expressões a meu respeito: “gosto de ajudar os pobres de espírito” ou “filha-de-putice”. Como lamento este branqueamento de posições e esta atitude deplorável!
4º - Sobre a participação de Daniel Abrunheiro no espectáculo “Andar nas Nuvens” torno claro, para que conste:
a) Na noite de 14 de Fevereiro, decidi adaptar a teatro um conto de Mario Lamo Jiménez e, três dias mais tarde, convidei Daniel Abrunheiro a embarcar nesta ideia. Ao longo de duas sessões de trabalho (já a 22 e a 26 de Fevereiro), mostrei-lhe os avanços que até aí efectuara: texto adaptado, alguns dos poemas para serem musicados, indicações de encenação, a par de propostas de montagem (com marionetas, sombras, vídeo e música). A tarefa de Daniel Abrunheiro (remunerado pela ACERT), que não conhecia o autor da história nem desempenhou qualquer papel na inventiva do espectáculo, circunscreveu-se tão-somente à elaboração de poemas para canções adequados à moldura dramatúrgica por mim previamente definida. b) Entretanto, obtive a autorização escrita (em português) de Mario Lamo Jiménez, acrescida de uma sincera satisfação pela realização do projecto, que ainda mais se intensificou depois de ver a narrativa já modificada: “Não tenho palavras para expressar a emoção que sinto ao ter recebido tua magnífica adaptação e criação da obra neste primeiro dia de primavera: sinto que floresço por dentro e que os frutos chegarão até Portugal.”
c) Partilhei estas conversas com toda a equipa, onde naturalmente se incluía Daniel Abrunheiro, que a 22 de Março me disse: “Fico muito feliz, Zé. Muito mesmo. Adoro trabalhar contigo. Conta sempre comigo”. A 30 de Abril, reenviei a todos um outro texto cunhado por Mario Lamo Jiménez (de cujo endereço electrónico Daniel Abrunheiro passou, então, a dispor. Pasme-se com a minha inocência de ladrão a revelar à policia o local do furto…), desta vez destinado ao catálogo do espectáculo. Foi, portanto, com estranheza que, no dia seguinte, me deparei com um pedido de esclarecimento por parte do autor do conto adaptado, a quem Daniel Abrunheiro secretamente escrevera para dar conta de uma alegada “omissão de autoria”: “Querido José: Lamento mucho lo que creo que debe ser un mal entendido entre tú y Daniel. (…). Siento que algo que yo haya escrito pueda haber sido mal interpretado. En mi escrito mencionó a un "pescador portugués de palabras perdidas" y como bien dices, podría también pertenecerle a Daniel. Además digo que para su obra creó marionetas y estaba hablando metafóricamente pues sé que las marionetas físicas las creará el grupo mencionado en la ficha técnica "Marionetas de Mandrágora". En mi página Web puse la ficha técnica que venía con la obra: Adaptação e Dramaturgia – José Rui Martins; Adaptação livre a partir de “Uma Viagem Fantástica Ao País das Nuvens”, de Mário Lamo-Jiménez; Poemas de Daniel Abrunheiro, Fernando Pessoa e José Rui Martins. Y estaba muy consciente de que era un trabajo cooperativo y sé que Fernando Pessoa fue un gran poeta portugués, (si se trata del mismo). (…). Creo que cuando puedas hablar con Daniel se aclarará la situación.”
Na minha caixa de e-mail encontrei também, estupefacto, uma mensagem onde Daniel Abrunheiro me lançava esse absurdo insulto. Não obstante a clareza que a situação evidenciava, procurei contactá-lo (todavia, sem sucesso, perante a sua recusa em atender sucessivos telefonemas e a sua indiferença face aos meus vários e-mails), com o objectivo de perceber esta súbita alteração de comportamento: a 22 de Março estava feliz e adorava trabalhar comigo; a 30 de Abril insurgia-se insultuosamente contra mim e a ACERT pela alegada omissão da sua responsabilidade na co-autoria dos poemas, procurando com as suas mentiras incendiar cobardemente a minha relação com o autor que, de resto, ele nunca contactara.
d) As minhas tentativas revelaram-se infrutíferas e, três dias antes da estreia do espectáculo, Daniel Abrunheiro trocou definitivamente a hipótese de um diálogo sincero, aberto e frontal por uma exposição cobarde, insultuosa e provocatória no seu blogue. Sob o inspirado título “Caguei e Andei – Apontamento de uma Filha-de-Putice para que Conste” reivindicava, entre inúmeros ataques e ofensas execráveis, já não só a omissão do seu nome na co-autoria dos poemas, como a própria autoria da adaptação teatral do texto “Andar nas Nuvens”. Apressei-me a ir ao seu encontro, e tornei a ouvir um discurso típico de quem, na sua obsessão odiosa e egoísta, menosprezava completamente todo o zelo dos actores, todo o esforço dos múltiplos ensaios e todas as leituras treinadas vezes sem conta – essas, sim, enriquecedoras daquilo que tinha sido adaptado.
e) Após o acto de terrorismo intelectual de Daniel Abrunheiro, propus a esta equipa fantástica, autêntica obreira do projecto, um desafio louco e aparentemente irrealizável, mas que veio a concretizar-se: voltar à estaca zero reescrevendo, reinterpretando e recriando tudo em 48 horas, de forma a gorar as expectativas destruidoras de alguém que, embora toldado pelo seu egocentrismo e megalomania, mais não era do que um dos múltiplos elementos que compunham o espectáculo.
Cumprida esta missão quase impossível (a peça estreou, tal como previsto, às 14h30 de 31 de Maio), resta-me dirigir um sincero agradecimento a todos os que souberam demonstrar que, na ACERT, o mais importante é acreditar e vencer, em grupo, todas as contrariedades susceptíveis de fortalecer as vontades de um sonhar comum. Isto traduz, afinal, a verdade essencial e mais bonita, contra a qual um qualquer Daniel Abrunheiro, imbuído de um narcisismo básico e sedento de um protagonismo fácil, nunca poderá atentar, por mais destruidora que seja (ou procure ser) a sua conduta de kamikaze.
5º - Produzo esta breve nota – a mais amargurada que escrevi ao longo da minha vida – em defesa do meu bom-nome e, principalmente, da reputação da ACERT. Aos que me conhecem não trará, certamente, qualquer novidade. A todos os outros, a quem apenas chegaram as notícias venenosas veiculadas por Daniel Abrunheiro e pela sua camarilha, deixo-a como sinal de inconformismo e de desgosto pela mediocridade humana que esta situação pôs a descoberto.
Sei que não sou escritor; porém, isto não significa que aceite que os mais de trinta textos teatrais por mim criados e adaptados desde 1976 sejam alvejados por um delator inqualificável, para quem o meu percurso artístico e postura cívica se reduz aos curtos momentos em que lhe alimentei o ego, divulgando os trabalhos resultantes das suas pontuais colaborações.
Felizmente para mim e para a ACERT que, ao longo de três décadas de actividade, não tem havido quaisquer “Daniel Embrulhadas”, mas sim actos de cumplicidade nacionais e internacionais que nos fizeram conquistar amizades e parcerias, espelhando o respeito, a honestidade e o afecto com que nos oferecemos àquilo que amamos.
Deste modo, imprimo a estas linhas a certeza de que não vou deixar de me entregar às pessoas com um entusiasmo idêntico ao que outrora esteve subjacente à minha relação com Daniel Abrunheiro, cujas verdadeiras intenções o tempo se encarregará de esclarecer…
José Rui Martins
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veja também: A Nota à Imprensa da Direcção da ACERT
______________ 2007-06-02
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