ESTAMOS EM MACAU #3
Macau é um pedaço de terra rodeado de pessoas por todos os lados.
Macau é um pedaço de terra rodeado de pessoas por todos os lados.
Um pedaço de terra quente, que nos faz transpirar, que nos faz procurar refúgio nas lojas com ar condicionado sempre ligado. Um pedaço de terra onde o calor se sente na pele, mas onde, tantas vezes, é o calor humano que nos fica na memória.
Macau é também um pedaço de terra rodeado de sonhos por todos os lados.
Macau dista de Tondela aproximadamente onze mil quilómetros, em linha recta. Com as curvas, é mais um bocado. Mas talvez seja nas curvas que a vida acontece. É nas curvas que nos perdemos, que nos encontramos, que descobrimos histórias que não sabíamos que precisávamos de ouvir. É nas curvas que encontramos os sorrisos. Aqueles sorrisos de quem vem à porta dizer que tem Tsingtao geladinha, aqueles sorrisos de quem nos recebe como se já nos conhecesse há muito tempo, aqueles sorrisos que, mesmo sem falarem a nossa língua, nos dizem que estamos em casa.
Foram sete espectáculos. Quinhentos espectadores. Sessenta jovens nos workshops. Oitenta Tsingtao´s. E isto é só o início das contas. Houve picante em todas as refeições. Todas. Sem excepção. Ao fim de alguns dias, já não sabíamos se estávamos a comer ou a participar numa prova de resistência. Muito arroz, muita massa e uma quantidade generosa de picante, suficiente para nos fazer recordar que, em Macau, até a comida tem personalidade forte. Sushi? Nenhum. Nem uma peça. Fomos até ao outro lado do mundo e conseguimos passar ao lado do sushi. Mas ouve minchi!!
E depois há os encontros que não cabem nos mapas e os gestos pequenos que se tornam enormes quando estamos longe de casa. Mesmo em 15 dias, há a saudade de casa, que aparece sem pedir licença, e depois há a alegria de perceber que, mesmo a milhares de quilómetros de distância, continuamos a encontrar pedaços daquilo que somos.
Talvez seja também por isso que esta viagem fez tanto sentido para a ACERT. Porque a ACERT é sempre mais do que um lugar, é mais do que um palco, é mais do que um conjunto de espectáculos. É feita de pessoas, de encontros, de inquietações e de sonhos partilhados. É feita dessa vontade teimosa e persistente de levar a cultura mais longe, de atravessar fronteiras, de aproximar mundos e de acreditar que o teatro, a arte e a criatividade conseguem encurtar distâncias que, à primeira vista, parecem impossíveis de vencer.
E, de repente, Macau já não fica assim tão longe de Tondela.
A ACERT leva consigo um pouco dessa casa que é Tondela, mas também regressa diferente, enriquecida por tudo aquilo que encontrou pelo caminho.
É isso que as viagens nos fazem. Levam-nos para longe para nos ensinarem a olhar de outra maneira para aquilo que deixámos para trás. E talvez seja esse o maior presente de Macau. Não apenas o que nos mostra, mas aquilo que desperta em nós. A certeza de que o mundo é imenso, de que há muitas formas de viver e de sentir, mas de que, no fundo, continuamos todos à procura das mesmas coisas: um lugar onde possamos ser felizes, alguém com quem partilhar um sorriso e uma história que valha a pena contar.
Onze mil quilómetros são muita coisa. Há fusos horários, calor, cansaço e saudades pelo meio. Há curvas que parecem não acabar. Mas, quando chegamos ao fim do caminho e percebemos que trouxemos connosco rostos, abraços, sorrisos e memórias que já são nossas, entendemos que a distância nunca se mede apenas em quilómetros. Mede-se também naquilo que nos separa. E, sobretudo, naquilo que somos capazes de fazer para nos aproximar.
A ACERT regressa com a bagagem cheia de histórias, com algumas calorias por contabilizar, com os músculos a pedir descanso e com a certeza de que há viagens que nos cansam o corpo para nos encher a alma.
Às vezes, é o teatro. Outras vezes, é um abraço. De vez em quando, uma Tsingtao geladinha.
Macau fica longe de Tondela. Mas há lugares que, depois de nos tocarem o coração, nunca mais ficam verdadeiramente longe.
E há viagens que terminam no regresso a casa, mas há outras que continuam a acontecer dentro de nós durante muito, muito tempo.
Mas, quase sempre, traduz-se num sorriso.
Até já Macau, a nossa história ainda não acabou…