Se nos perdermos, às 19 horas no cais 22!
É fácil perdermo-nos em Macau.
As horas passam devagar e as pessoas andam depressa. Como se estivessem sempre atrasadas para alguma coisa. Ou talvez sejam tantas que o tempo tenha de correr para conseguir chegar a todas. Ou talvez sejamos nós, que andamos devagar, a tentar descobrir onde estamos no meio desta pressa toda.
Macau é do tamanho de Tondela, mais o Carvalhal, mais o Botulho e mais Tonda. Mas cabem aqui quase 800 mil pessoas. E, todos os dias, chegam mais 200 mil. Vinte e oito vezes a população de Tondela a atravessar as mesmas ruas, a cruzar-se nos mesmos passeios, a desaparecer por entre edifícios que parecem tocar o céu.
E nós, por aqui, vamos tentando não nos perder.
«Se nos perdermos, às 19 horas no cais 22!»
É uma maneira de dizer que, mesmo quando nos perdemos, há sempre um lugar onde nos podemos voltar a encontrar.
E talvez seja isso que andamos a fazer nesta digressão: a encontrar lugares, pessoas, outras maneiras de olhar e de escutar. A descobrir que, mesmo tão longe de casa, há coisas que não precisam de tradução.
Já apresentámos dois espetáculos para o público geral e mais três para o público escolar. Fizemos também dois workshops de movimento e música. Levámos o nosso corpo, a nossa voz, os nossos gestos e as nossas histórias até ao outro lado do mundo.
Ou talvez não seja bem o outro lado do mundo. Talvez o mundo seja redondo precisamente para nos lembrar que não há um lado de cá e um lado de lá.
Houve sobretudo portugueses na plateia, mas também alguns chineses. Sentados diante de nós, de telemóvel em riste, acompanhavam as palavras com tradução simultânea.
Sorriram connosco. Abanaram a cabeça. Riram nos mesmos lugares. E, mesmo quando as palavras precisaram de atravessar uma língua para chegarem ao seu destino, alguma coisa chegou primeiro.
Talvez um gesto. Uma pausa. Um olhar. Talvez tenha sido aquela pequena inquietação que nasce quando uma história nos toca e, por instantes, já não sabemos muito bem de onde somos nem a que lugar pertencemos.
Perceberam um outro Bosque.
No fim, agradeceram. E regressaram ao seu bosque de árvores gigantes, aos seus dias apressados, às suas ruas cheias, às suas vidas.
E é bonito pensar que um espetáculo pode fazer isso: abrir uma clareira no meio de uma cidade imensa. Um lugar onde cabem pessoas que nunca se conheceram, que falam línguas diferentes e que, por alguns instantes, respiram ao mesmo ritmo.
Talvez o teatro seja isto. Construir uma casa provisória onde qualquer pessoa pode entrar.
Contar uma história como no "Queres que te conte" e deixar a porta aberta para que cada um regresse ao seu mundo levando qualquer coisa do mundo dos outros.
A ACERT sabe disso há cinquenta anos.
Há cinquenta anos que abre clareiras, constrói pontes, inventa encontros e acredita que a cultura não serve apenas para nos mostrar o mundo: serve também para nos aproximar dele e uns dos outros.
Cinquenta anos a semear bosques. A plantar perguntas. A fazer crescer árvores onde antes parecia não haver terreno. Cinquenta anos a provar que uma comunidade pode ser pequena no mapa e imensa naquilo que sonha, cria e partilha.
E aqui estamos nós, em Macau, tão longe de Tondela, a levar um bocadinho desse bosque connosco.
Por isso, se nos perdermos, às 19 horas no cais 22.