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3 Perguntas a Miguel Fragata
3 Perguntas a Miguel Fragata


Em palco, A Caminhada dos Elefantes trabalha com o corpo do actor e a manipulação de bonecos e objectos. Como é o processo de encenar juntando estes elementos para criar uma narrativa em cena?

O processo começa precisamente pela narrativa. A opção de ter um ator sozinho em cena tem a ver com uma escolha dramatúrgica. Tratando-se de um espetáculo sobre a morte, que é um processo solitário, achámos que fazia sentido ter apenas um ator em cena. Por outro lado, queríamos contar uma história que envolve um homem e uma manada de elefantes e ainda outras personagens. O recurso aos objetos e às miniaturas (humanas e animais) é uma forma de trazer mais pessoas para a cena, sem ter que multiplicar atores. Interessava-nos ainda trabalhar uma ideia de escala. Ficámos muito impressionados quando lemos descrições acerca do tamanho, força e dimensão descomunal dos elefantes na relação com os humanos. Optámos por brincar com essa escala disforme, invertendo-a. Temos elefantes em miniatura, que permitem que o ator fique gigante na relação com eles. E também temos elefantes que, com um trabalho de luz, fabricam sombras gigantes.

Há ainda um aspeto que tivemos em conta quando escolhemos trabalhar com estes objetos: é o facto de estes bonecos serem do universo quotidiano das crianças. São objetos que lhes interessam à partida e que, quando transformados pela linguagem teatral, ganham uma nova dimensão e uma vida que os deixa perplexos. Ver um adulto a contar uma história, com seriedade, com brinquedos (que normalmente os adultos desprezam), é uma experiência que, para as crianças, tem um poder importante.

Que tipo de exigências (técnicas, físicas, interpretativas) enfrenta um ator que contracena com objetos inanimados, como acontece em A Caminhada dos Elefantes?

A maior exigência é a credibilidade. Se queremos dar vida aos objetos, eles têm realmente de ganhar essa vida. E têm de ganhar a importância que realmente lhes queremos dar. Quando começámos a trabalhar neste espetáculo e decidimos que queríamos trabalhar com miniaturas, sabíamos que não nos interessava um trabalho de manipulação exaustivo. Não é um espetáculo de títeres ou marionetas. Aquilo que acontece é que em determinados momentos eu tenho que saber dar o foco certo ao objeto que quero evidenciar. Se, ao dar o foco ao objeto, eu me relacionar com ele de uma forma credível, acreditando nesse instante que o objeto é um ser animado, ele ganha de facto, perante o público, essa importância e consequentemente ganha vida!

Este é um espetáculo pensado para os mais novos e onde os temas da morte, do esquecimento e da efemeridade são abordados frontalmente. Como é que trabalharam essa abordagem perante a ideia-feita, o preconceito, de que certos temas não devem ser apresentados a um público menos maduro?

Nós construímos este espetáculo depois de um extenso trabalho de pesquisa em que trabalhámos com mais de 200 crianças, entre os 6 aos 12 anos, em vários pontos do país. Queríamos compreender qual a relação que as crianças têm com o tema da morte. Tivemos o apoio de uma pessoa da psicologia, para nos acompanhar e balizar as propostas que nos permitiram recolher material para depois refletir e sobre ele construir o espetáculo.

Percebemos, para nossa grande surpresa, que a relação imediata das crianças com a morte é de grande naturalidade. Elas compreendem a morte através da observação da natureza, compreendem a mudança das estações, lidam com o fim dos animais de estimação, com o fim da vida como uma necessidade vital ao bom funcionamento do planeta. O problema com a morte apenas aparece assim que as crianças compreendem que a morte é encarada como um problema para os adultos. Assim que percebem que os adultos não querem falar sobre o assunto, ou que não querem dar espaço às crianças para fazer um processo de luto, ou que têm medo da tristeza que possam sentir - perante essas reações, as crianças começam a desenvolver a ideia de que talvez a morte tenha um lado obscuro, sobre o qual ainda não lhes falaram e que devem temer.

Nós quisemos trabalhar a partir das crianças, para que o espetáculo pudesse oferecer uma série de perspetivas que elas próprias enunciam sobre a morte. Não poderíamos oferecer respostas (e também não o fazemos!), mas apostámos na criação de uma série de possibilidades sobre o momento do fim, para que crianças e adultos pudessem escolher aquelas que são, para si, mais tranquilizadoras.

Sabemos que, para os adultos, é um tema muito sensível, sobretudo quando associado à infância, que geralmente os adultos querem afastar de emoções ditas “negativas”, como a tristeza ou a saudade. Mas foi precisamente por causa desse tabu que o quisemos fazer. Porque essas emoções são tão ou mais importantes do que as ditas “positivas”! É importante sabermos lidar com elas.

Interessam-nos os temas difíceis, mas estruturantes. A morte faz parte da vida de uma forma profunda, essencial. É por isso que as crianças a compreendem tão bem. A nossa abordagem a este tema no espetáculo é por isso também natural, às vezes mais profunda, outras vezes feita com humor, de uma forma que, esperamos, possa pôr adultos e crianças em diálogo, tornando o tabu num tema possível para uma conversa em família.


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2015-09-25
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