07 jul
TER
21:00
SE TIVESSE TEMPO - Desenho e de_mais José Paiva Um exposição sobre o abstrato e o real, a resiliência e a recusa da neutralidade.
07 jul
TER
21:00
Um exposição sobre o abstrato e o real, a resiliência e a recusa da neutralidade.

Calendarização

07 jul
ter
21:00
2026
até
12
SET
SÁB
18:00
Tondela  (Galeria ACERT)

SE TIVESSE TEMPO - Desenho e de_mais

José Paiva

José Paiva, professor, artista plástico, Investigador e coordenador do movimento intercultural Identidades desde a sua fundação em 1996, é um ACERTino de longa data, e no Tom de Festa vamos ao encontro dos seus desenhos, através da exposição “Se tivesse tempo – Desenho e de_mais”.

A exposição revela-se uma oportunidade de partilha das suas reflexões sobre o mundo que nos rodeia, e os contrastes entre arte e realidade, e o tempo em que uma se reflete na outra.

 

se tivesse tempo

poderia usufruir do silêncio diluído no prazer que comporta quem

desenha,

ignorando o que há-de vir, gravando

em plena e ignorada lentidão

sobre o papel, as possibilidades adquiridas de criar materialidade

 

poderia

se isso fosse possível, ausentar-me do estrondo que o peso do

tempo presente descarrega sobre nossos corpos, afastando a

intranquilidade persistente que molda a poética perseguida

que anula o tempo e o silêncio

 

— se eu tivesse tempo

seria pleno companheiro dos que são afastados do uso do seu tempo

e são mergulhados na barafunda que lhes é destinada

transformados em sem_nome, sem_rosto, sem_casa

— esbateria a incompletude do que sou, superava o desconseguido,

refreando a perturbação que tolhe o que faço

no desenho e no de_mais

proporcionava no ver o detalhe que ofereço

o que lhe escapa

como se estimulando cumplicidade com um outro tempo onde a árvore volta

a nascer

em Gaza e no que sobra da desumanidade

 

josé paiva

Nasci na cidade do Porto, em maio de 1950. Tornei-me professor, investigador, artista plástico, sendo doutor em Pintura pela Universidade do Porto. A Universidade do Porto, com a minha jubilação da Faculdade de Belas Artes (2020), presenteou-me com o título de Professor Emérito da Universidade do Porto.

 

Tenho apresentado, desde 1983, os meus trabalhos em Exposições Individuais, no país e no estrangeiro: Museu da Pesca, Tarrafal de São Nicolau, Cabo Verde (2022), Galeria Acert, Tondela, Portugal (2021), Alternativa, Galeria, Mindelo, Cabo Verde (2020), Nossa Casa, na Boa Vista, Recife, Brasil (2020), Museu do Trem, Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco – Recife, Brasil (2019), Galeria Novo Ciclo ACERT, Tondela, Portugal (2006), Serpente, Galeria de Arte Contemporânea – Porto, Portugal(2005), Casa da Cultura da Trofa, Portugal (2004), Galeria Novo Ciclo ACERT, Tondela, Portugal (2020), Centro Cultural Português, Maputo, Moçambique (1999), Galeria do Convento de S. Francisco, Coimbra, Portugal (1995), Ária – Espaço Cultural, Recife, Brasil (1993), Museu de Arte Assis Chateaubriand, Campina Grande, Brasil (1993), Bule Bule – S. João da Madeira, Portugal (1993), Galeria ACERT, Tondela (1992), Gesto Cooperativa Cultural, Porto (1992), Bule Bule – S. João da Madeira, Portugal (1990), Feitoria, S. João da Madeira, Portugal (1990), Galeria Etnia, Caminha, Portugal (1989), Festas da Mata, Tondela, Portugal (1989), Árvore, Porto, Portugal (1989), Árvore, Porto, Portugal (1986), Galeria do Cinema S. Mateus, Viseu, Portugal (1985), Museu Municipal de Celorico de Basto, Portugal (1984), Galeria Nova Opinião, Lisboa, Portugal (1984), O Realejo, Porto, Portugal

(1983  Estou representado por minhas obras em algumas instituições no país e no estrangeiro: [Brasil] — Museu de Artes Assis Chateaubriand – FURNE, Campina Grande; Fundação Joaquim Nabuco, Recife. [Moçambique] — Instituto Camões, Maputo. [Cabo Verde] — Atelier Mar, Mindelo. [Portugal] — Campo Arqueológico de Mértola; Museu da FBAUP; Reitoria da Universidade do Porto.

Com regularidade tenho participado (muitas vezes como seu organizador) em inúmeras exposições colectivas no país e no estrangeiro: Brasil, Cabo Verde, Espanha, França, Moçambique, Países Baixos, Portugal e São Tomé e Príncipe.

Desenvolvo atividade regular de investigação na área da Arte, Educação Artística e Interculturalidade, como Investigador Integrado no Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade (i2ADS), sendo membro da sua Direcção e do seu Conselho Científico.

A minha dedicação a práticas colaborativas, na área da arte e da cultura, moveram a minha vida para a constituição da GESTO Cooperativa Cultural (1987—2013), desenvolvendo a partir daí o “IDENTIDADES_ movimento intercultural”, hoje sediado na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, centrado na cumplicidade com escolas, instituições culturais, instituições comunitárias e artistas no Brasil, Cabo Verde, Moçambique e S. Tomé e Príncipe.

 

 

Os erres das árvores

Notas sobre Resistência e Revolta

O poema da poeta palestino/americana Noor Hindi, intitulado “Fuck Your Lecture on Craft, My People Are Dying”, declara de forma muito clara a sua rejeição relativamente à ideia de uma arte afastada da realidade. De uma arte anestesiada… adormecida. Logo no início do seu poema, escreve o seguinte verso: “Colonizers write about flowers,” para, depois, em forma de resposta, escrever na segunda linha do poema: “I tell you about children throwing rocks at Israeli tanks seconds before becoming daisies”. Finaliza o poema com as palavras: “One day, I’ll write about the flowers like we own them.”

1. Nos dias que correm, muita da arte que se vê em exposições, um pouco por todo o lado, sofre desse síndrome. Encontra-se numa espécie de limbo de superioridade: preocupa-se com o planeta e a natureza, deixando de fora a realidade. No final de um texto em que crítica de forma muito claras noções políticas de Bruno Latour tão apreciadas pela arte, o filósofo inglês Peter Osborne termina com a seguinte frase que não deixa dúvidas: “O político é uma modalidade do social, que é em si mesmo sempre um conjunto socio-natural e socio-histórico de relações, processos e práticas. O problema é prático”.

2. Não se pode negar a importância da defesa do planeta e da natureza, mas há crianças a atirar pedras a tanques segundos antes de serem mortas. Como poderemos olhar para o lado perante tal realidade? O José Paiva há muito tempo que desenha árvores. Poderia, quase naturalmente, ser envolvido nesse grupo e, contudo, as suas árvores são diferentes. Necessitam de ser diferentes para valer a pena desenhá-las. As árvores que desenha aproximam-se, isso sim, da importante última linha do poema de Noor Hindi “Um dia, escreverei sobre as flores como se fossem nossas.”

As suas árvores não são neutrais, mas não querem introduzir-se no binário ético da moralidade das boas ou más acções. As suas árvores são absolutamente amorais. São gestos desejantes. Utopias, tal como o último verso da poeta palestiniana.

Por isso, as suas árvores são processos minuciosos de temporalidades outras e que, no entanto, tudo tentam, para que um dia sejam nossas.

As obras dos artistas constituem-se numa duplicidade que se funde na materialidade que exalam: importa o que dizem e, também, o como dizem. Quer dizer, o trabalho demorado e detalhado dos desenhos aqui mostrados revela uma relação com a hipervelocidade contemporânea que lhe é exterior. A sua realização demorada é, sem dúvida, uma forma de resistência que se junta à própria significação das árvores. Árvores do Sul; árvores banais, quaisquer; árvores que a voracidade do lucro queima regularmente; árvores que não se deixam quebrar perante os bombardeamentos genocidas em Gaza. Árvores que são ruínas de um outro tempo. E, no entanto, não esqueceremos Benjamin quando nos avisa que as ruínas transportam sempre consigo algo de novo.

Quase não existem árvores em Gaza. A paisagem da destruição, obliterou a natureza. Os escombros tudo apagaram. As pessoas, os animais, as árvores, as flores. E, mesmo assim, não conseguiram apagar a esperança. No meio dos escombros começam a nascer plantas, no meio dos campos de refugiados, por entre as suas tendas precárias, começam a surgir pequenas hortas. As árvores voltarão a aparecer. São estas as árvores do José Paiva. Nada têm a ver com a neutralidade anestesiada, são, antes, alegorias de uma realidade por vir.

Os dois grandes desenhos, bem como os inúmeros pequenos que nos mostra, fruto de um demorado e laborioso processo são um bom exemplo da capacidade resistente que a materialização de uma obra possui em tempo de desmaterializações várias. Tudo aqui é obsoleto. O suporte, apenas papel; o medium, apenas uma simples esferográfica; o resultado, uma imagem que quer representar a realidade e, no entanto, carregada de “defeitos”. É, certamente, por todos estes elementos, que vale a pena observá-los com atenção, deixarmo-nos imergir neles. A obsolescência que carregam coloca-os numa posição privilegiada: aquela que possibilita a distância crítica. O obsoleto, tantas vezes interpretado como uma forma de passado, encontra-se bem longe dessa condição temporal. O obsoleto pertence ao presente, é um ente que faz acto de presença, mas não corporiza nem representa a oficialização dessa mesma temporalidade. Apenas convive com ele...em forma crítica. Daí o prazer de se deixarem ver expondo todos os “defeitos” que advêm da manualidade que os constrói e que, assim, se opõe à racionalização algorítmica em busca da perfeição absoluta das imagens. Os seus defeitos são testemunhos de verdade. Aqui não existem falsidade nem enganos propositados. Os defeitos que os desenhos mostram são a corporização da vida como ela é. Cheia de defeitos e falhas. Somos assim. Imprevísiveis, a tentar viver entre acidentes, acasos e remendos aqui e ali. Somos assim. Por isso, os desenhos do José Paiva são, também eles, manifestações de vida.

Da vida que é água, da vida que a água armazenada no enorme embondeiro contém como reservatório natural. A árvore que o José Paiva nos mostra, mostra-nos a nossa condição do presente. As ameaças aos maiores reservatórios de água. O grande desenho remete para a gigantesca ilha coberta de gelo e sob ameaça da cobiça imperial do capitalismo. Conduz-nos directamente a Gaza onde a ocupação sionista recusa água à população. Crianças morrem diariamente com problemas relacionados com a falta de água. O neoliberalismo parece cego relativamente à sua ambição de lucro, mas surdo sobre os perigos que produz.

Finalmente, uma nota sobre uma memória que esta exposição nos traz. O gesto solidário (hoje tão distante) de Félix González-Torres que, ao invés de centrar toda a actividade no acto da venda, optou desde o seu início por oferecer obras aos visitantes das suas exposições. A memória é um dos mecanismos decisivos do nosso presente e o Paiva traz-nos a sua visão, à qual acrescenta a dimensão histórica necessária para nos acompanhar no futuro.

Escrevi há tempos num desenho uma frase: não há opções neutras.

O Paiva corporiza, nesta exposição, todo o amplo significado desta afirmação.

Que diferença que faz.

Fernando José Pereira

artista plástico / investigador I2AD

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2026
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SET
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Tondela  (Galeria ACERT)