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Data/Hora:  De 15 a 17 mar'17 às 21:30

E AGORA?

M/12

Texto do Autor

Em E agora? vamos escalpelizar a atualidade através das palavras de Gonçalo M. Tavares e tentar perceber o que se está a passar neste nosso mundo:

 

“Será que o abstrato invadiu a Europa…

A velha economia era isto: duas vacas que se trocavam por mil galinhas; fábricas e máquinas, árvores que se vendiam ou compravam.
Pouco a pouco, no entanto, os elementos vivos e os metros quadrados foram desaparecendo de cena. Ficaram papéis com signos e números…
Se escrevermos num papel a frase “este papel vale cem mil euros”, certamente não iremos acreditar que esse papel, essa folha que antes estava branca, passará a valer 100 mil euros…
Mas se ganharmos uma certa distância, veremos que, em parte, toda a queda económica a que assistimos hoje se deve a um processo semelhante, a grande escala.
Quem tem um papel acredita que esse papel vale, se pensarmos nas acções, um certo dia 2 euros, no dia seguinte euro e meio, e na semana seguinte três euros.
Estas subidas e descidas do valor das acções, para quem está de fora e não entende nada de nada, são algo ainda mais estranho.
Não é apenas a crença fixa num signo, como era a dos Primitivos, agora é uma crença flutuante - que a cada dia muda o valor material que atribui ao signo.
O mais absurdo é que a crença no abstracto, foi acompanhada por uma destruição sem precedentes da matéria concreta.
Foram abatidos na Europa vacas e barcos, campos de cultivo foram desactivados, máquinas destruídas ou impedidas de trabalhar, pois não se devia produzir mais do que uma certa quantidade.
E ano após ano os dois processos foram avançando em paralelo: destruição das coisas que no mundo tinham volume e multiplicação dos papéis sem volume que simbolizavam riqueza.
Acreditou-se, no fundo, que a riqueza estava nos signos e que as vacas, os barcos ou os metros quadrados eram uma riqueza, sim, mas antiga, ultrapassada, inadequada.
E durante anos trocaram-se papéis de um lado para o outro.
Pequenas folhas que rodavam de mão em mão; e, a cada passagem, por magia, essas folhas pareciam aumentar de valor. 

Como uma passagem de testemunho mágica:
o indivíduo A passava um papel ao indivíduo B, este ao indivíduo C, este ao D, e o último da fila, por fim, acreditava que o papel recebido valia já mil vezes o valor inicial.”

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