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3 PERGUNTAS A ... CARLOS SANTIAGO E JOSÉ RUI MARTINS
3 PERGUNTAS A ... CARLOS SANTIAGO E JOSÉ RUI MARTINS


Carlos Santiago e José Rui Martins respondem a 3 perguntas a propósito da estreia do novo espetáculo "Cicatriz" nos dias 13, 14, 20 e 21 de fevereiro de 2015

Há poucos autores a escreverem humor, ou comédia. Qual é a dificuldade de escrever nesse registo?

Penso que isso é um medo que as pessoas têm, como se a escrita mais séria, digamos, fosse mais fácil. Há uma certa sacralizaçãoo da escrita literária, ou dramatúrgica, e o humor exige que se perca esse respeito, quer à realidade, quer à linguagem. Ora, perder o respeito pela linguagem é uma coisa que muita gente teme. Eu, como tive uma educação teatral pouco respeitosa, sempre me senti bem nesse meio. Além disso, não tenho esse respeito todo pela realidade, nem pela linguagem. (CS) 

Da minha parte, além da escrita do humor, acho que é uma área em que efectivamente tudo tem um limite e um poder preciso da palavra. Para que funcione uma frase no registo humorístico, a troca de uma palavra ou de uma frase faz com que tudo fique em risco. A prosa, ou mesmo a poesia, é um jogo onde as palavras mais facilmente se compõem no jogo umas coisa as outras, mas a colocação de uma palavra ou frase no sítio errado pode destruir uma piada. Por outro lado, há a questão do tempo. Duas pessoas podem contar a mesma história e num caso a piada pode resultar, mas no outro não. Ora, na escrita não está o tempo do dizer; esse tempo pertence à oralidade e portanto para conseguir escrever humor de modo a que a leitura nos transporte a essa oralidade, é muito difícil, porque há pausas, tempos, suspensões, palavras meias ditas modos de dizer. Esta descodificação do leitor e pelos bons humoristas é uma coisa que nos parece fácil, parece que não deu trabalho nenhum, mas é exactamente o inverso. Normalmente, os actores retraem-se muito a correr esse risco. Pode haver palmas ou não, há o medo do ridículo, a própria educação que tivemos – não se conta uma anedota com medo de não saber contá-la, com medo que as pessoas não se riam dela. Há que correr riscos para o humor resultar. (JRM)

 

No texto de Cicatriz nota-se a reflexão sobre a actualidade a debater-se com uma vontade de intemporalidade. É um conflito ou as coisas complementam-se?

O Trigo Limpo, nas incursões que fez pelo humor, teve sempre experiências de uma riqueza incrível, quer para quem interpreta, quer para quem escreve. Não digo que seja mais difícil interpretar um texto humorístico, mas exige o conhecimento de um conjunto de técnicas específicas e muito exigentes. Por outro lado, a composição das personagens, tal como o texto está a ser feito, exige interpretações múltiplas por parte dos actores. A aposta está muito no sentido dessa intemporalidade do texto e das situações, na menção que podemos ter, não a esta figura ou àquela, mas num modo o mais universalizante possível a figuras que são recorrentes. A questão é que, nesta altura, o humor é difícil, porque a realidade parece ultrapassar tudo.

Com este trabalho que estamos a fazer com o Carlos Santiago também queremos homenagear duas figuras que estão contidas neste universo e que nós estimamos muito, Millôr Fernandes e Santos Fernandes. São dois amigos, o Santos Fernandes quase desconhecido em Portugal, e portanto há aqui todo um universo que nos dá muito prazer. O Carlos é um obreiro do humor, alguém que o exercita quase naturalmente, que não precisa de grande argumento para chegar a um bar, a um palco, e filosofar a partir do humor. O humor é uma coisa muito séria. Anda-se sempre no fio da navalha. A descodificação do espectador, aquilo que ele espera, o riso fácil, o conseguir-se, na escrita e na representação, esse equilíbrio no fio da navalha, o não intelectualizar o chouriço, como diz o Carlos... Não existe preconceito na escrita ou no dizer dele, no fazer de um espectáculo despojado, onde as coisas lhe saem de um modo muito natural.

 

Como é que os actores estão a lidar com este processo, em que vão trabalhando o texto à medida que este está a ser escrito?

Já muitas pessoas escreveram para o Trigo Limpo, mas este processo a acontecer desta maneira, com o texto a ser escrito e, à medida que cada cena está pronta é logo testada na leitura, para verificar se a oralidade lhe corresponde ou não, é muito interessante. E depois há a surpresa, a ansiedade dos actores para verem a cena que chega... É um exercício fantástico, e não apenas por termos o autor vivendo connosco. Esta presença do galego é muito boa, porque reencontro palavras que eram tão minhas e que foram desaparecendo com esta pseudo-modernidade da língua. E depois, o Carlos escrever, eu ler e estarmos os dois a colocar as frases na oralidade de Portugal é um exercício de dramaturgia fantástico e faz-nos perceber o tudo que temos em comum.

Os actores são malucos o suficiente para estarem a viver esta aventura. Concretamente para três deles, os novos actores que entraram para A Viagem do Elefante, o desafio foi muito grande, mas creio que o foi para todos. Na formação de actores, mesmo nos mesmo nos conservatórios, a questão do humor, da comédia, não é muito explorada, portanto, este desafio é muito interessante e é um mundo que se experimenta pouco. Mas é um exercício de interpretação que podemos utilizar, depois, em todas as outras formas de interpretação teatral. O contacto com as coisas que temos na cabeça e que não sabemos como alcançar é uma coisa intensa neste exercício e tenho a certeza de que será um processo que nos servirá em todas as outras interpretações.


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2015-02-09
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